Se há um dia em que não me importo
de não ser lembrado por ninguém,
é hoje. Finados.
o homem só
O homem só nada teme.
Porque tudo já lhe foi tirado.
Sua sina é a da espera ansiosa pelo que não virá.
Deu os desejos todos por um modo de sarar as feridas.
Enquanto a indesejada não chega.
Com a pouca vaidade resumida à gasta dignidade.
E o pensamento dividido entre deitar para dormir ou morrer.
O reino dos céus está logo ali.
Espera ter feito por merecer.
no apagar das luzes
Assim como este virtual apagar das luzes,
meus versos também encontram seu termo,
como ondas que arrebentam nos molhes.
Nada mais tenho a dizer.
Nada devo a ninguém, nem me sinto credor.
Logo a vida que se esvai não será mais
que memória.
Vago canto de pássaros que não vemos.
Vejo passar meus últimos dias como quem
não tem mais nada a perder. Muito menos ganhar.
O que fiz de bom ou de ruim me segue como um
cão fiel.
Quando a hora chegar, hei de estar arrumado
como para ir a uma festa.
O melhor de viver é esperar.
a procura
Para Itamir Frantz
À razão da luz que vara preguiçosamente a bruma,
alguém que se desconhece
olha pela janela em busca do que ser,
antes que os vermes o devorem. Conquanto já o devorem.
Já teve tudo o que poderia pretender,
mas, no entanto, nada o satisfaz.
E ao negar o tempo, contra o mundo vasto e desfeito,
ombreia-se à Natureza,
alheia a seus recorrentes e obsidiados dilemas.
E assim, à vista de seu próprio elemento,
mortifica o velho corpo na ânsia de refrear o tempo.
Firmemente, vive como um zangão
que abdica da colmeia.
A procura, se não de descobrir-se,
ao menos do fim da escuridão.
sou pródigo, mas nem tanto (recall) Agarro o azul Mastigando vidro Improviso de ouvido Fungando no cangote D...