travessia
Foi uma longa travessia.
Cheguei a achar que não conseguiria.
Aliás, às vezes penso que ainda não consegui.
Chegar à terceira margem.
o maior dos enganos
Meu breviário de desatinos fulmina a ideia de querer
sem forte.
Meus versos semeiam a terra de tijolos.
Busco os contornos dos vazios, meine nacht ist meine licht.
A estética do fracasso me anima.
No fundo, o inimigo é quem melhor nos entende.
Não estranhe que uma pessoa que se mostra superior,
não passe de um embuste.
Tudo aquilo que não amamos ou deixamos de amar
acaba sendo decorativo, descartável.
Morrer tragicamente dá dignidade a vida, mas não nos redime.
O mistério impenetrável das coisas é o pó da estrada em que
conhecimento nenhum é suficiente.
Abster-se da ingênua crença no amor, eis o mote.
Tudo somado, vivi apenas para aprender o óbvio.
Que ninguém é de ninguém, e o maior dos enganos
é achar que ao outro conhece.
alguém lá em cima gosta de mim
Não me perdoo por ter amado do jeito
desmazelado que te amei.
Não me perdoo por ter demorado tanto à cair na real.
Não me perdoo por ter me humilhando,
deixado que me humilhasse.
Me pintado de vilão,
enquanto já se deitava com outro.
Não me perdoo por ter ignorado as evidências.
Ter deixado tua versão prevalecer durante
todo esse tempo.
Não me conformo por ter aceitado carregar
passivamente essa cruz.
Enquanto você se divertia às minhas custas.
Mas alguém lá em cima gosta de mim
e se encarregou de por tudo em pratos limpos.
Pegou pesado, fez você pagar com juros.
Descanse em paz, se puder.
Por quem eu sofro
Sofro de borboletas que não ferem ninguém.
Sofro do que punge fundo.
Sofro do aroma que vem de longe.
Sofro de arrepios, rumorejos, gorjeios empassarados
de sol.
Sofro de brisas embaraçadas de luzes matinais.
Sofro de coisas calmas, de silêncios sem porto,
de rostos consumidos por azinhavre.
Sofro de perdas, incrustações, lápides que a terra a de comer.
Sofro de livros, versos, andorinhas sem escamas.
Sofro de gente comida pelo lodo, anêmonas, espantalhos.
Sofro de coisas que não levam a nada.
Sofro de esconder-me nas palavras para decifrar o que não sei.
Sofro de andar às cegas, sonhos sem prateleiras,
saudades do que não vivi.
Ah, sim, sofro de insônia, mas isso é o de menos.
Sou um camaleão que finge ser eu.
A vasta extensão de mim
é um terreno fértil de besteiras.
Como já diz o jurisconsulto de chão, Manoel de Barros,
seja árvore, ao invés de parede.
Ninguém faz um poema que preste
sem conhecer ignomínias e antros.
Sem fazer do inominado, do insignificante,
raiz do seu canto.
Poesia é arte não dizer nada, dizendo tudo.
sou pródigo, mas nem tanto (recall) Agarro o azul Mastigando vidro Improviso de ouvido Fungando no cangote D...