a volta por cima
No fim do caminho tinha uma ribanceira.
Que exigiu forças que eu não tinha.
Cai, levantei
sacudi a poeira
e dei a volta por cima.
a vil pecúnia
Esse seu jeito de gostar,
que você diz ser amor,
mas que soa mais como deboche,
confesso, já não sei como lidar.
Por mais que eu tente,
não consigo conciliar o que sinto
com esse seu jeito errante,
sempre condicionado a algum presente,
para demonstrar o que talvez nem sente.
Estou farto de você não me levar à sério,
de me fazer de gato e sapato,
pelo fato de eu ser tão dependente
dos carinhos que anseio feito um tolo adolescente.
Mas, no fundo, a culpa é toda minha.
Por me negar a ver o que está na cara.
Que o amor que para mim é entrega e devoção,
para você é simples moeda de troca,
mera distração.
não basta ser cego
Não basta ser cego.
A conversão é lenta e fiduciária.
Panacéias, exorcismos,
incunábulos multiplicam os corredores.
A lucidez é bicho esquivo.
Nada mais inútil que tentar abrir portas
trancadas a sete chaves. Lacradas pela ignorância.
Ir contra a correnteza, a conversão por persuasão ou necessidade,
executada à base de florilégios ou no fio da espada.
Rezo provérbios,
disperso e prolixo,
malhando em ferro frio
e coisas do gênero.
O gesto tosco,
tortura e desgosto,
ataraxia predadora em que me afundo.
Não basta ser cego.
É preciso não enxergar.
Consolo torpe é ser covarde
travestido de benfeitor.
Verme por natureza, repugnante até a saciedade,
sujo e penalizado,
a conversão é lenta.
Não é fácil ser ignóbil.
O hábito desfaz o rito.
O membro viril e triste, subverte a lógica.
O desvario de quem só vê uma face da moeda.
Cifras de almas perdidas.
Olhares curiosos perpassam os truísmos.
Os outros que se danem.
O esquecido dura mais.
Quem perdoar, verá.
o sal da terra
Guardar os axiomas para os dias difíceis,
eis o sal da terra.
Pensamentos que desmantelam a ordem das coisas
engendram embustes.
Na lenta desagregação de cada dia, perde-se tudo
em pleno gozo dos prazeres.
Os que se amam e depois se desprezam, são a mesma pessoa.
Não há culpas, apenas lapsos.
Nunca atingimos a justiça absoluta, um bom juiz é aquele
que se coloca no lugar do réu.
O pensar condicionado pelo apego induz a erro.
No fim das contas, desapegos aparam as arestas.
As coisas só caem no esquecimento quando
não importam mais.
Conforme mudamos, os juízos mudam. O que era bom
não presta, não serve mais.
O dedo sujo aponta à esmo.
Às vezes mais vale estar errado.
O mundo esquece facilmente de nós.
O eu abolido está perdido e feliz.
Livre, o arbítrio lima as certezas.
O óbvio eclipsa o juízo.
O ódio solapa o discernimento.
O tiro pela culatra é a justiça por linhas tortas.
Com frequência, senso e contrasenso contaminam-se.
Tendo esquecido, foi-se a premência.
O louco amor vira tumor.
Não obstante, o final é sempre a libertação.
Raiva, mágoa, não valem um grão da ampulheta.
Nada que um placebo não cure.
Quem se foi, que se vaya con Dios.
Do idílio ao purgatório, num deslizar de dedos.
Pode dar certo um mundo em que um apetrecho
que cabe
na palma da mão,
faz as vezes do conhecimento humano ?
Tenho tudo e não tenho nada.
Tudo o que me permite sobreviver dignamente,
nada do que um dia importou.
Tive uma vida boa, só fazia o que gostava.
Hoje faço aquilo que a vida me permite. O que não é pouco,
diga-se de passagem.
E sou muito grato por isso.
Tudo que tive e que tenho, se fundem num emaranhado
que ainda luto para deslindar.
Às vezes sinfonia, às vezes cacofonia.
Nada mal, em todo caso, para o aprendiz
relapso que sempre fui.
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Ainda me constrange lembrar de como eu era chucro,
provinciano, falso moralista, quando cheguei a Santos, prestes
a fazer 20 anos, vindo de uma cidade literalmente fria
e conservadora como Curitiba.
Levei anos para superar o choque cultural que me levou até
mesmo a abandonar precocemente a carreira (promissora, é o que
diziam ) de futebolista.
Não tive estrutura emocional para me adaptar a um ambiente
que me agredia em muitos aspectos.
Sobretudo, a falsidade, a discriminação.
Abandonei a carreira no dia em que um diretor da Portuguesa
santista (valeu, Ciaglia) mais uma vez descumpriu a promessa
de me pagar os salários atrasados, alegando que, face a verba
limitada, priorizara aqueles, a seu juízo, mais necessitados.
"Sua família tem posses, você consegue se virar", lembro dele
ter dito algo assim.
Impulsivo como sempre fui, cometi a insensatez de desabafar com
meu então colega de faculdade, Adelto Gonçalves,
hoje escritor consagrado, e à época repórter do jornal A Tribuna,
que não perdeu a oportunidade de dar o "furo" em que eu anunciava
o fim de minha carreira e chamava o tal diretor de traidor.
Lembro que no dia seguinte, logo cedo, meu pai me tirou da cama
aos berros, como raramente vi ao longo de toda nossa convivência,
exigindo que eu me retratasse, pois a merda havia respingado em
sua atividade comercial, já que o então presidente da Portuguesa
era também presidente da Cooperativa Mista de Pesca
Nipo-Brasileira, o saudoso José Augusto Alves, seu principal cliente.
Fui obrigado a me retratar para não prejudicar meu pai, nem lembro
o que aleguei, mas mantive a decisão de não jogar mais
profissionalmente. Talvez porque logo em seguida, após um breve
estágio, ingressei na carreira jornalística, convidado por meu
professor na Facos, Ouhydes Fonseca, já falecido,
e que era também editor de esportes do jornal A Tribuna.
da calmaria ao tormento Cedo ou tarde, os dias de tormento chegam. E não há nada que se possa fa...