eu sou aquele que morreu e não sabe
Eu sou aquele que pensa nas delicadas melodias
que o tempo afasta lentamente.
Acompanha-me a trama jubilosa, a jornada adversa
que rege o muito e o precioso que perdi.
Para além das coisas vistas, rostos que não quero recordar,
ao morrer tão devagar.
Eu sou aquele que morreu e não sabe.
diamantes
Quando tudo parece inútil e incerto,
contemplando o inexistente, a vida sem sentido,
sufocado por um sentimento de morte silenciosa.
Quando tudo se repete dia após dia,
e os anos passam sem nada para reter,
nada além de recônditas epifanias.
Quando a vontade gasta se desprende
enquanto o irreversível tempo avança,
e a esperança
destece sua cansada história.
Quando o grave círculo que tudo abarca
completar seu ciclo, e a carne corrompida
remontar aos gozos infernais.
Quando, enfim, se ver envelhecido em meio
a tantos espelhos e delicados paradigmas,
esquecido do próprio passado.
Quem sabe, então, a rotina, o sonho e os rostos
apagados da memória, se convertam em esplêndidos
e atrozes diamantes.
feras domadas
Sob o disfarce da linguagem pueril, não há nada de gratuito
no que escrevo.
Nenhuma palavra, nenhuma frase, nenhuma construção verbal
que não tenha um propósito.
Que não tenha a ambição, talvez desmesurada,
de trazer à baila aquilo que nos faz humanos : a emoção.
Nada do que escrevo é gratuito, posto que, senão
exatamente vivenciado, garimpado do fundo da alma,
em conúbio com o coração.
Sou o que escrevo. Invenção mal acabada de mim mesmo.
Professo o imaginário, como um prestidigitador que semeia
devaneios.
Meus fracassos e infâmias são feras domadas, caídas ao preço
de tantos tropeços.
Das quais me penitencio compartilhando meu fado com o mundo.
Perpetuado de ausências.
Extraindo poesia contra o mundo vasto e desfeito.
UM MINUTO
Em um minuto faz-se um poema.
Impressentido, repentino, a elevar-se entre os mistérios
da realidade desfocada.
Urdido nas entranhas daquilo que não se consegue expressar.
Daí sua razão de ser.
Isento de blasfêmia.
Lambendo, se lambuzando de palavras lacanianas.
As pesadas asas tangenciando as incompreensões.
Roçando as raízes encravadas no peito.
Um minuto para que o silêncio se faça perene,
e o coração viciado em dissídios
renuncie a ilegível insipidez.
Um minuto e já não é amor.
E o poema já não é poema.
Negando aquilo que não cessa.
o exercício dos sentimentos tortos
O disfarce da aceitação tácita nos exime
da compreensão compulsória.
As coisas que importam, não se retém.
Esquecemos de tudo rapidamente, nos machucando
mutuamente.
Desconstruindo o que aprendemos.
Para que os sonhos sejam ao mesmo tempo, desejo
e repulsa.
O abandono das causas justas precede o exercício
dos sentimentos tortos.
Um minuto basta para fecundar um filho bastardo.
O amor é um conceito que se desaprende com o tempo.
Como a sola gasta de um sapato.
da calmaria ao tormento Mais cedo ou mais tarde, os dias de tormento chegam. E não há nada que s...