esse brincar com as palavras
Esse brincar com as palavras.
De solitárias efabulações.
Acoimadas por paixões sem diretrizes.
Em metáforas e rimas espiraladas.
O irreprimível como pano de fundo.
Mente e coração em sintonia.
Poesia.
a imagem e semelhança
Meu irmão tem a pele das mais diversas raças.
Meu irmão tem história de osmoses incandescentes e ritos
primitivos.
Meu irmão é íntimo de todos os descaminhos, tem o corpo
inocente e lacerado de todas as desditas.
Meu irmão é animal irracional, vítima e algoz da orbe petrificada.
Meu irmão tem o rosto do martírio e da conflagração.
Meu irmão tem as mãos calejadas e repletas de ternuras
amanhecidas.
Meu irmão luta e apascenta. Quebra e se refaz.
Meu irmão é fera e poeta. Carrega a agonia de todos os jugos
e fomes.
É filho e pai. Covarde e herói.
A imagem e semelhança de quem o fez.
a causa de viver
Amargos dias se despedem dos numes terrestres.
Rarefeitas as lides, estagnados os passares mundanos,
a revoada dos sonhos deixa para trás a crosta pestilenta
das sagas merencórias.
Meu corpo, primeiro e derradeiro abrigo da alma seccionada,
madura em hortas esquecidas.
Entre a doçura das aragens e a azafama das colheitas, aduba
a consciência sobranceira.
Aqui é além do que meu penhor de incoerências remonta.
Sobrevivo ao pomar destruído
perdidamente devotado a causa de viver.
Minha terra macia de ternura
ainda anseia por amor.
minha vida, em cinco atos
Até os dez anos de idade, já tinha vivido tanto, usufruído tanto,
que a vida já teria valido a pena.
Até os vinte, não foi muito diferente, meus anos dourados, mas
as primeiras mancadas resultaram em consequências irreparáveis.
Até os trinta, fiz de tudo e um pouco mais, e paguei o preço.
Até os quarenta, tentei recuperar o terreno perdido, finalmente
criei um pouco de juízo.
Até os sessenta, tudo parecia caminhando relativamente bem,
mas daí em diante, menino, nem te conto, de tanto rebuliço.
E eu achando que já tinha vivido tudo.
carapaça luminosa
Estou aqui e não estou.
O que fiz da minha vida constela-me de estrelas
e naufrágios.
Meu coração cabotino foi um mau conselheiro.
Vereda aberta em que a frágil beleza do amor se emporcalhou.
Não obstante os infatigáveis sonhos, colheitas e frutos
o austero mundo consumiu,
concomitantemente aos espaços corrompidos, enfim e no fim,
de alguma forma redimidos.
Sigo sem saber para quê e para onde vou,
raspando a memória da realidade oca, refugo da minha história.
Desço aos arrabaldes da existência beirando os detritos
que me mantém vivo.
O amor consignado ao vil preço das barganhas sexuais,
recusa a capitulação nada honrosa. Padeço mas já não sofro.
A luta perdida partilha o pão dos desejos gregários.
Dessa vez sem receios e remorsos vãos.
Estou só. A ninguém devo satisfações.
Apesar da erosão do tempo e da fadiga, a carapaça luminosa
de meu ser
ainda faz a vida valer a pena.
passantes
Escrevo o que me vem à cabeça.
Daí tanta bobagem
Longe de mim ser original.
Não receio te perder.
Ninguém perde o que não tem.
Sem prosperidade a vida emperra.
Sem Deus, a vida não faz sentido.
Exista ele ou não.
Ninguém é feliz
não tendo o que perder.
Eis o paradoxo.
A morte é uma libertação.
No mais das vezes, indesejada.
Todo estrago
deveria ser compensado
com afago.
A vida passa
sem ligar
para os passantes.
Essas garotas de verão,
exibindo seus corpões,
no inverno
para quem se exibirão ?
Se você caiu na lábia de algum vigarista,
não se chateie.
És apenas mais um para o clube.
sou pródigo, mas nem tanto (recall) Agarro o azul Mastigando vidro Improviso de ouvido Fungando no cangote D...