pagando o pato
Ao largo do poluído estuário santista,
pescadores amadores se enfileiram,
com a maior paciência do mundo,
a espera do improvável : fisgar um peixe
que preste.
Os baiacus, coitados, é que pagam o pato.
a vida que não vivi
Não tenho culpa de ter nascido.
Do resto, me declaro culpado.
Passei a vida em desassossego.
Fracassei em quase tudo, num pensar
e sentir deslocado da realidade.
Desejoso de tudo abandonar e viver outra vida.
Deixando de viver a plenitude de cada dia.
A vida que tudo me oferecia e eu não via.
A tudo, porém, o espírito inato de Orfeu
se sublevou.
Os desatinos não me impediram de ser feliz.
Pagando o preço mas colhendo os frutos
da vida que não vivi.
Para a qual enfim despertei.
SOBREVIVENTE
Entre as muitas jornadas em meio a jornada,
sóis estagnados aquecem o labor
de quem se esquece de quem um dia foi.
O antigo eu não exige nem pede.
Venceu a dor mas perdeu a esperança.
Nada espera mas não cala.
Celebra a vida da qual se despede.
Sublime e dolente.
Nada mais pungente
que o doce epitalâmio
de um sobrevivente.
gente torpe
Invejáveis são as coisas inanimadas, que não pensam,
não sofrem.
Diferentemente de nós, pobres humanos, cujos dons
não nos tornam menos imundos.
Porque o que nunca faltou é gente torpe no mundo.
Ser falho, como todo humano,
não nos isenta de culpa.
Pois para o mal não há desculpa.
Todo dolo há que ser punido ou purgado,
para que não se perca a noção
do certo e do errado.
da calmaria ao tormento Cedo ou tarde, os dias de tormento chegam. E não há nada que se possa fa...