terça-feira, 25 de abril de 2023

 


                       decreto divino



Rebanhos. Seremos, de fato, um grande rebanho ?

Rebanhos de gado, rebanhos de asnos, conforme a tosca

retórica da militância política nativa.

Todos irremediavelmente tangidos pela mídia nefasta,

por governantes inescrupulosos, mentores de araque.


Divergentes caminhos de rebanhos seculares nos precedem.

Rebanhos que guerrearam, edificaram impérios,

moldaram países, fazem o trabalho sujo.

Somos filhos de povos escravizados,

de negros arrancados de suas tribos seculares,

de populações manipuladas,

indígenas catequizados na marra.

Rebanhos que se formam e se dissolvem sob o tacão

dos poderosos, 

de conquistadores impiedosos,

pela cruz de Cristo, pela espada do Alcorão,

por bem ou por mal.


Porquanto os rebanhos pastam,

amam,  acoimados em sua inútil rebeldia,

isentos de culpa porém punidos, 

imolados.

Por decreto divino.










                             ora, direis



A saga humana escalavra as entranhas do mundo.

Rompe a casca dura.

Perpassa a agreste inocência.

Tece secretas florescências.

De desditas se alimenta.

Compadecendo-se em miserável ternura.


À pantomina dos dramas evoca palavras de olvido.

Aprende-se a duvidar de tudo

para que o fardo alheio não nos pese.

Dores de toda espécie nos ladeiam.

As injustiças, as privações, os assassinatos

não nos dizem respeito.

Até chegar o nosso dia de padecer à revelia.

Imerecidamente, ora, direis. 

Mas quem se importa ?




  


                           amor ordinário ( à moda Bukowski)



O amor ordinário é como uma escova

de dentes gasta.

É como comprar um carro usado

com o motor fundido.

É comprar um bilhete de loteria

que já correu.

É pegar o ônibus errado e não ter

grana para voltar.

É cagar na cueca pensando ser um peido.


O amor ordinário é como um vício.

Você sabe que faz mal

mas não consegue largar.

É uma piada pior que a vida

mas não há nada melhor.

Não ter certeza de nada, nada esperar

a não ser viver o momento.

Sem falsas ilusões, portanto. 

O que pode ser melhor ?


Amor ordinário, sem futuro, atrelado

ao passado que sempre volta,

apegar-se, nem pensar.

Este é o pacto.

Nada de promessas, cobranças, compromissos.

Coisa de segunda mão, sem garantia.


O que tenho a oferecer é insuficiente.

O que tens a dar, agarro com unhas e dentes.

É pouco, mas não posso querer mais.

O amor ordinário não se submete,

não aceita imposições.

É o que é.

Intangível, postiço.

De tão ordinário, sujeito a acabar

com um simples bloqueio no watts ap.



segunda-feira, 24 de abril de 2023



                        em causa própria






Ralei muito para chegar onde estou,

nos arrabaldes de mim mesmo.

Rodei, rodopiei, cai e levantei

nem sei quantas vezes.

Me jacto em dizer : nada nem ninguém

me derrubou.

Nem as falsetas da vida, nem a bola nas costas

da mulher amada.

Penei, é claro, cheguei às vias do desespero,

mas uma força interior inexplicável sempre

esteve comigo.

Uma força interior semelhante a de Leon Tolstói, 

que fugiu de casa aos 80 anos

para viver com uma rapariga de 22 ( mentira, só estou

legislando em causa própria, como manda 

nossa infame judiciário).










domingo, 23 de abril de 2023


                              a vida é agora 





Por que tanta demora ?

Assim vai perder a hora.

O tempo não espera.

A fruta apodrece,

o rio seca.

O amor murcha. 

Por que tanta demora

para entender 

que a vida é agora ?





                       o homem que não fui



Sou um homem que sonha outro homem.

O homem que não fui.

O homem que queriam que eu fosse

e não consegui.

Sou o homem que sonham por mim. 




sábado, 22 de abril de 2023



            cão sem dono



Um cão magro na rua

passa sem olhar o semáforo.

Talvez já cansado de viver.


Assim como eu, anda 

pra lá e pra cá,

sem que ninguém ligue.


Eu ali, esperando o ônibus 

na fria garoa, me senti como

aquele cão sem dono.





 

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