princípio e fim
Meu lado sombrio
é a hóstia
do meu estio.
Meu lado risonho
é o princípio
e o fim do sonho.
Meu lado humano
é o lenho
da minha cruz.
Em nome de Jesus,
rogo por
um pouco de luz.
viva a vida !
você que se lamenta
que reclama
que blasfema.
você que vive de mau humor
que se fecha para a vida
que só vê o lado ruim das coisas.
você que ignora as pequenas bençãos da vida
que não consegue ver nem é grato.
você que é um chato
mala sem alça
um pé no saco.
um dia se dará conta
de que desperdiçou a vida à toa.
reze para que não seja tarde demais
quando um médico qualquer
lhe disser :
"você está com câncer."
tempos de murici
No fim, o que resta é o marasmo que cultiva
o vazio interior.
A coroa de espinhos.
O lixo dos dias.
A pressão alta.
Tempos de murici.
O muito que precede o pouco.
De tudo que foi excesso e carência.
As epifanias emprenhadas de vazios.
O desconsolo das ausências despetaladas
sob lentas verdades e mitos.
De tudo que habita-se renascido nos ciclos
além dos desejos.
Além dos propósitos.
No fim, o fim oferta-se em sacrifício
resgatado do fogo purificador.
Lavado do hades interior.
No qual a verdade é luto
e o Éden é a ausência de conflitos.
No fim, abandonado o velho roteiro, tudo carece
ser reescrito.
Como cada vez em que os tempos difíceis
maltratam a consciência
e profanam tudo e todos a quem nos apegamos.
O peso dos erros mescla-se ao desejo de celebrar
os fracassos.
Dançar sobre os cadáveres dos falsas afetos.
inventário
O que mais me pesa : não amei o suficiente, nem satisfatoriamente.
Vivi dando murro em ponta de faca e não aprendi.
Nunca soube dançar conforme a música.
Nunca fui sensato, sempre fui de jogar tudo para o alto.
Nunca me aprofundei em nada, a não ser em veleidades.
Meus melhores afetos já morreram e eu nem senti.
O coração arbitrário sempre fez tudo ao contrário.
Escapei de morrer um par de vezes, só Deus sabe por que.
Deixei de sonhar com o que me falta, talvez
porque nada me falta.
Nunca soube o que fazer da minha vida, mas nunca
odiei nem fiz mal a ninguém. A não ser a mim mesmo.
Meu maior desejo é chegar onde tudo recomeça.
De tudo que me lembro, só restaram dois ou três amigos
inesquecíveis.
O resto é vasto, justo e jubiloso.
Do que se conclui que nada é tão bom
que não se possa abrir mão.
Minhas afeições de nada me valeram, de uma forma ou de outra,
todas me abandonaram.
Valho mais pelo que não fui.
Minha vida sempre foi boa, as agruras nunca passaram
de melodrama barato.
Meu maior erro foi ter nascido.
a espera do que não virá
A espera do que não virá é longa.
O que fazer do tempo, ou de nós mesmos,
de todos os falhados, o evolver das coisas,
a brisa da espera afadigada de soprar - haverá algo
do rancor antigo nas aflições de hoje ?
A espera do que não virá é infinita.
No desfile dos dias, o aboio das vespertinas ausências
se sobrepõe a todos os clamores.
A solidão veludosa das ruínas em que tudo se encerra
remonta à eloquentes mutismos.
Como alguém que se despede.
Como tudo que flui e o verme corrói.
O amor em pouso doendo na alma.
A espera do que não virá.
da calmaria ao tormento Mais cedo ou mais tarde, os dias de tormento chegam. E não há nada que s...