sábado, 1 de julho de 2023



                         contrato de risco



Não se iluda.

O começo do fim se amotina em seu auge.

Quando tudo parece calmo, perfeito.

O começo do fim é o momento mais improvável.

O mais memorável.

Quando o amor parece mais grandioso, inabalável.


Tanta ventura não fica impune.

Afrodite é ciumenta, vingativa.

Engendra ciladas, intrigas, desditas. 

Põe o amor à prova, testando a paciência,

a resiliência, o sexo...

Até que o que era imenso, sublime, 

fenece,

desaparece.

Posto que mesmo em face do maior encanto,

nada dura, muito menos infinito.


Te amei mais do que a mim mesmo.

E jurava que a recíproca era verdadeira.

O que não impediu que tudo se perdesse.

E o que havia de melhor e mais raro,

no mais sórdido desfecho se transformasse.


Do auge ao declínio, é só uma questão de tempo.

Cumpre sopesar, entender que muito mais 

que de grandes momentos,

o amor não passa de um contrato de risco.

Sem prazo nem garantia. 











 



Madrugada.

É quando melhor me conheço.

E nada temo.

Além de meus medos.

De não saber mais quem eu sou.

De que depois da morte 

seja sempre noite.






Peixes cegos. Cobras voadoras.

Pássaros sem asas.

O Eufrates que seca.

Os sinais estão por toda parte.

Florestas em chamas.

A envenenada paisagem brilha 

como água luminosa.

Gotejando pura como nunca.

Deus está aqui.

Em todas as coisas infectadas.


 



Hoje está tudo bem.

Amanhã, já não sei.

A vida se repete

até chegar ao impasse,

ou a um ponto sem volta.

Que é quando as pedras rolam.


 





O urubu me espreita,

enquanto bica a carcaça de um peixe.

certo ele, pensei.

Um olho no gato, outro na sardinha. 




                            

                        meu melhor acalanto





Lembro do silvo agudo dos maçaricos voando 

antes das tempestades.

Os eucaliptos encharcados tremulando ao vento.

O cheiro luxuoso da chuva empapando a terra.

Os andorinhões  procurando abrigo nas árvores.

O céu inteiro prestes a desabar ao rebombar das trovoadas.

As poças se formando no quintal,

que depois ia chapinhar sob o alarido alegre

dos meus dois cães de guarda.


Sempre gostei da chuva. Lembro com carinho

das tempestades repentinas dos escaldantes verões 

da minha infância gaúcha, 

e mais tarde, da garoa gelada das manhãs curitibanas. 

Os pingos ecoando na rua, batendo na vegetação,

ainda são o meu melhor acalanto.

A chuva lava a sujeira da vida. 














  

sexta-feira, 30 de junho de 2023



             poema que nem poema é





Há laburnas, colunatas louras, 

enxame de mãos africanas,

fardos para carregar,

ataúdes de anões,

turbas romanas.

Vestidos lunares, véus funerários,

deuses provisórios, sílabas inteligíveis.

Há o preto e o escuro, convém não confundir.

O preclaro e o austero. A grade trancada, 

fontes de mel.


Há o cavalo com cor de ferrugem.

Pequenas franjas sangrentas.

A ferida e a gangrena. Bocas sedentas. 

Metais ardentes.

Mágoas de Deus. Lençóis opressivos.

Enxames de moscas novas.

Pinhas de abetos.

Qualquer coisa para lembrar.

Vestes e afagos.


Há oferta e comprador.

Feldspato e cristais apodrecidos.

Ondas de juníperos. 

Calafrios da noite. Rijas almas corrompidas.

Há cordilheiras de granito.

Serpentes prateadas. Relvas crestadas.

Carne tostada sobre pedras.

Bocetas de jovens prostitutas.

Cassetetes e coronhadas.


Há sobreviventes.

Nossas vidas.

E esse poema 

que nem  poema é.






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