Se estou sozinho
anseio por tua presença.
Se estamos juntos
logo me enfastio.
Instáveis,
somos por demais
compatíveis.
o caminho que não escolhi
Ando incógnito por um caminho que não escolhi.
Misturado ao torvelinho alucinado de vassalos de telas, teclas,
aparatos digitais que invadem, assediam, corrompem
o perene rocio das virtudes.
No grande mar de rostos regurgitados por uma engrenagem
frenética e desregulada, herdeiros mal nascidos
barbarizam
em nome de deuses plastificados e desdenhosos.
Estranhos se tornam íntimos, espectadores tomam partido
em cada evento que se autodestrói, sucessivamente.
No ágora em que tudo e nada acontece, a milagrosa
iniciação claudica e prescreve,
indiferente ao burburinho ordinário.
Como um fugitivo atento, me embrenho na autofagia
do tempo para não ser devorado.
Antes de devorar-me o caminho que não escolhi.
A vida que não quis.
entre engodos e mentiras
O cenário esculpido de mazelas zela por seus loucos.
Invectivando garras como a pítia sobre
a trípode falsamente engenhosa.
Ora penetrando na absconsa gruta, ora redopiando
em torno do nada.
A hora do desespero não perde a hora.
Exaustos, deixamos por isso mesmo. Os apelos do influxo
incorporam os pináculos frígidos dos estertores.
Ao tempo em que o anelo digital penetra pelas órbitas
insaciáveis, engolindo bosta e expelindo sensações
de brisa.
Somos mais virtuais que reais, sob a hedionda máscara
do deleite sem culpa.
A pequena vida lateja como estátua num jardim abandonado.
Um deus vítreo e metálico despreza os fantoches dançantes
ungidos por adoradores do reles.
O que se pode fazer quando alguns tem só direitos,
enquanto outros só obrigações ?
Tudo e nada.
Nada e tudo.
Nada acontece sem um motivo. Nem sempre razoáveis.
Cristo subiu ao calvário para salvar
o que não pode ser salvo.
É lícito supor que não o faria de novo.
Mais sensato é orientar-se com os cegos
e festejar com os loucos.
Entre o engodo e a mentira, erguem-se as tochas
e os cantos de vitória.
Traidores da pátria refestelam-se como criminosos
homiziados.
Marcham intactos desde os primórdios.
Nada pode derrota-los.
Que importa se tudo se faz de novo ?
A palavra conforta e distrai.
Somos todos e um só. Estar na plateia ou no palco
já nos condena a consumição perpétua.
O teu fracasso é o meu fracasso, desconhecido irmão.
negociando com a vida
Arrasto meus ossos cansados por aí
pensando em como o tempo vai suprimindo os prazeres,
até mesmo os mais simples, como caminhar, ter uma
noite inteira de sono.
Triste, mas é a vida, não há muito o que fazer, a não ser
procurar mitigar e se possível, tirar algum proveito.
Buscar compensações.
Aprendendo a negociar com a vida.
Saber enquadrar-se nos prós e contra da nova realidade,
mudando a percepção do que se perde,
para o que se pode ganhar.
Ao invés da agitação, valorizar a calmaria, o sossego.
Ao invés da vida desregrada, curtir, degustar.
Ao invés do ímpeto irresponsável, o comedimento.
Ao invés de noitadas, uma boa noite de sono.
Ao invés de vícios, voltar-se à espiritualidade, seja
num centro espírita ou num templo budista.
Ao invés de hiper-dimensionar as preocupações
comezinhas da vida, descomplicar.
Ao invés de sonhar com o impossível, viver
a plenitude do possível.
Arrasto meus ossos cansados por aí sem entregar
os pontos.
A verdade é que em matéria de relacionamentos,
o ideal está longe daquilo que se pratica.
Senão, vejamos.
Amar, em tese, é desejar o melhor para a pessoa
amada.
É fazer de tudo para deixa-la feliz, certo ?
Só que na prática raramente isso acontece.
Deixamos sempre à desejar.
Exigindo demais e entregando de menos.
sonho de consumo
Náusea de espelho.
Náusea de mim mesmo.
Ecos de Borges a dessonhar as quimeras.
Esculpindo o indecifrável.
Fragmentos do limbo ensimesmam a melancolia.
Líquens deliquem em festins de felações impudicas.
O apogeu do epigeu faz jus à modernidade insuportável.
Detendo-se na espessa ausência rimbaudiana.
Poemar não é mais preciso.
A um passo do cadafalso, tudo que é falso range.
Exorbitâncias estupefatas liquefazem
o sangue de barata.
O descompasso premedita o inesperado.
Cai a noite e a lua demora.
Barcos exaustos retornam alados.
A calmaria assenhora-se das horas.
A ventania festeja a vitória e a derrota.
Eros ferozes despedaçam-se a vista de Lebos.
A tara de Tirésias é nosso sonho de consumo.
da calmaria ao tormento Cedo ou tarde, os dias de tormento chegam. E não há nada que se possa fa...