domingo, 27 de abril de 2025


                    o cachimbo da paz





Já não lembro do teu rosto

O passado jaz no fundo do poço 

Enfim posso viver

e ser eu de novo

Livre e limpo

Tristeza e solidão não consomem mais

meu vigor.

Esqueci a musa da minha história

Fumei o cachimbo da paz comigo mesmo

De tudo que não fiz me declaro culpado

Espero um novo amor

como quem não tem um álibi

Já não lembro do teu rosto

Do resto lembro tim-tim por tim-tim. 




                         miragem




O olho inventa o mal

O chão cria paisagens

O vento invade os espaços

O mar abraça os sargaços

O arco-íris beija o efêmero

A fé brilha sem rosto

O espelho ignora o desejo


Eu sei que logo alguém dirá

que tudo não passa de miragem, 

e a paz uma quimera.

Que a vida é uma sequência de histórias

confusas, em que chafurdamos 

em meio ao marasmo das inconstâncias

E talvez seja a mais pura verdade


Minha canção é meu disfarce

O choro de quem sangra por dentro.

Alado, felino, maroto.

Um velho que ainda pensa

ser um garoto.



segunda-feira, 21 de abril de 2025




          meu amor não se presta 

          a desagravos




Eu poderia te pedir perdão de joelhos.

Poderia implorar, jurar, prometer 

mundos e fundos.

Poderia chorar, demonstrar arrependimento,

te cobrir de flores, fazer mil agrados.

Mas estaria mentindo, fingindo.

Porque não posso mudar quem eu sou.

Não consigo fugir à minha essência.

Nem por amor.

Nem te amando.


Porque é verdade que te amo.

Do meu jeito imperfeito.

Cheio de defeitos.

Intempestivo, volúvel.

Não existe o amor perfeito.

Muito menos eu.

Daí a necessidade de se amoldar,

de se ajustar

ao que cada um pode dar.

Fazendo das tripas, coração.

Para haver compreensão.

Lealdade.

Sem o quê, melhor nem tentar.


Te amo do jeito que sou.

Do jeito que tu és.

Mas não vou mentir e prometer

o que não posso cumprir.

Meu amor não se presta a desagravos.



* musicado em 21/04/2025




segunda-feira, 14 de abril de 2025


                        o orgasmo do ego



Se não conseguir ser o melhor,

não seja aquele que desistiu.


A prosa erótica

induz o orgasmo do ego.


Tudo o que respira,

inspira cuidados.



Plantou um segredo

e colheu uma profecia.


A imaginação não tem limites

nem censura. 

É só o que nos salva da mediocridade.




quinta-feira, 10 de abril de 2025


                     lá vem o sol

* tributo a George Harrison (the quiet beatles)




lá vem o sol

pintado de amarelo

expulsando a escuridão

iluminando os quintais

despertando os brejos

fecundando as plantas, as flores

disseminando a vida.


lá vem o sol

repartindo a beleza

pairando sobre os oceanos, as florestas

cobrindo os cumes

aquecendo os dias frios

resplandecendo entre as nuvens.


heres comes the sun

debruçando-se sobre o horizonte

entrando pelas janelas

penetrando pelas frestas

esparramando-se pelo chão

garantindo a vida de todas

as criaturas

reinando sobre o céu e a terra

hoje, amanhã e sempre.

 

quarta-feira, 9 de abril de 2025



                             a vida dá e tira


tantos rostos

tantos desgostos

tantas coisas tortas

sem respostas

o amor te voltando as costas

a vida te fechando as portas

como brincadeira de mau gosto.


a vida dá e tira

o costume inútil de ser feliz

se resume ao gozo momentâneo

o moroso tempo lima os dias de antanho

sigamos, pois, 

insones e sonhando

sendo nada 

para ser tudo.


num dia qualquer

tudo de bom ou de ruim

pode acontecer

assim como nada também

a vida passa arrancando pedaços,

flui e reflui como a maré.

recria pactos e algemas.

às vezes a urgência de amar

é a mesma de esquecer.


a vida dá e tira.

o começo é o fim 

de trás para frente.



terça-feira, 8 de abril de 2025



                        a arte de amar


A arte de amar

dispensa conhecimento de causa.

Só se aprende praticando.

E nunca é a mesma coisa.

Armas e bagagens ajudam mas não resolvem.

A não ser faca de dois gumes.

Tudo começa pelo ponto de partida.

No sufoco, qualquer musa serve.

De preferência, de cama e mesa.


A arte de amar

dispensa formalidades.

Quanto mais teatral, melhor.

Sem perder a fábula de vista.

Na véspera, nada acontece.



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