extraordinário
Meu momento é de contrição.
Me resguardo dos sonhos grandes e amores
impossíveis (risíveis ?).
Mas ainda sou o mesmo.
E por ser o mesmo, aberto a novos erros.
Amplo, inflamado, ainda capaz de algo
extraordinário.
Amar o ordinário.
prodígios
Há sempre um ritmo oculto
à reger as coisas.
Nada acontece por caso.
Nem o acaso.
Cada caso é um caso.
Todos os seres vivos se inventam
e se reinventam
conforme as circunstâncias,
em seu devido tempo.
Plena e insurgida, a vida cumpre-se e gasta-se
em seu múltiplo existir.
A cada instante o novo e o velho
se cruzam
para engendrar o precário presente.
A cada instante a vida começa e recomeça.
Ou acaba.
Enquanto prodígios acontecem.
amor radioativo
É mais forte que eu
esse sentir
que me domina
me arrebata
me subjuga.
Às vezes até penso
ser capaz
de superar, esquecer.
Mas logo me arrependo,
volto atrás,
me humilho,
peço arrego.
Meu calvário é ruidoso e demasiado.
Por tudo ser intenso demais.
Nosso querer, minha impaciência,
tua inconstância.
Já não controlo o que sinto.
Vou de um extremo ao outro,
euforia, cansaço, desgosto.
Renunciar tornou-se imperioso.
Mas é mais forte do que eu
esse querer alucinado e radioativo.
Mistura de amor e compulsão.
Minha perdição.
Minha razão de viver.
Louvadas sejam as coisas
que se restauram
a cada amanhecer.
meu coração é meu santuário
É bom ouvir os segredos do silêncio.
Reflito calado, à beira de mim mesmo.
Renascendo no imaginado.
Porque, no fundo, o que eu quero é o que já tive.
Os sapatos amaciados, a partilha da utopia
de ser feliz.
Para dar sentido as coisas que virão.
Já fui bendito.
Já fui maldito.
Já fui amado.
Já fui execrado.
Agora sou meu próprio showman.
Novos fracassos me atraem.
Me vingo do que me fere sem o ônus da prova.
Entro e saio de cena sem mágoas nem penas.
Vivo a vida sem precisar de bode expiatório.
Celebrar é obrigatório.
Meu coração é meu santuário.
Aberto a todas possibilidades.
Prenhe de felicidade.
o rosto
Um rosto paira no silêncio da noite.
Flutua sobre o tempo vivo, remanescente do fracasso
de um amor que sequer existiu.
Não do jeito que imaginava.
Não forte e invencível, como acreditava.
Às vezes é o que acontece.
De o amor não ser o que parece.
Pinta e borda no começo
para depois se revelar um autêntico blefe.
Um rosto paira no silêncio da noite.
Quisera poder apagá-lo da memória.
Mas está além da minha vontade.
Reluto em aceitar que não consigo te esquecer.
Que bem ou mal, te conhecer
foi a melhor coisa
que aconteceu na minha vida.
meu coração me condena
Meu coração me condena a ser só.
Por sentir tudo intensamente.
Dou tudo.
Quero tudo.
Simples assim.
Meio termo não me satisfaz.
Não gosto de nada pela metade.
Querer, gostar, amar
tem que ser para valer.
Não um mero jogo de palavras.
Pois cobro, sim, reciprocidade.
Desde as coisas mais simples.
Atenção, respeito, consideração.
Para o quê espero a devida contrapartida.
O que raramente acontece.
Daí os constantes conflitos.
Daí acabar sempre sozinho.
Meu coração me condena a ser só.
Por não me contentar com pouco.
Por esperar dos outros mais do que podem dar.
Por ser pródigo em empatia e ternura.
Por confiar e me arriscar a fazer papel de bobo.
A ser sempre o errado.
Por querer, por amar demais.
o roto e o esfarrapado
Algo de nós sempre fica no limbo da memória.
Arrastamos nossas culpas sem assumi-las.
Mas já não há desculpas disponíveis.
As promessas se recolhem, coniventes.
Tudo já foi feito, refeito e descumprido.
O roto e o esfarrapado andam lado a lado.
Só as coisas primitivas permanecem, voltando-se
contra si mesmas.
Algo de nós não inspira confiança.
Algo de nós quer o novo
mas não se desprende do velho.
De ti e de mim, o amor foi-se afastando
aos poucos.
Em meio a tudo,
algo de nós se refugia no tempo prescrito
e decifrado.
Para que todas as coisas lindas
que vivemos
tenham alguma serventia.
da calmaria ao tormento Mais cedo ou mais tarde, os dias de tormento chegam. E não há nada que s...