sexta-feira, 24 de abril de 2026



                    o fim do amor


O fim do amor é sempre triste.

Mas também pode ser uma libertação.

Quando o coração já não aguenta

tanto desgosto e provação.


Te amei loucamente, mas você nunca

retribuiu.

Mesmo assim, me sujeitei a tuas regras.

Aceitei o inaceitável.

Me sentindo culpado por sentir em excesso.

Como se o afeto precisasse ser dosado.

Mas como tudo que não dura é farsa,

o que ficou para trás finalmente

encontrou seu lugar.

Quando percebi que não valia a pena

tanto esforço para caber no teu mundinho.

Quase me desculpando por te amar.

Estou indo. 

Reconciliado comigo mesmo.

Precisei perder-me para me encontrar.























                            passado sem futuro



Entre muros e memórias

edifico minha história.

Sem pompa nem glória.

Venturosa e atribulada trajetória.

Que se desfaz no limbo 

das paixões merencórias.


De há muito esqueci-me de quem sou.

A despeito de o coração pulsar pelo afeto

que não dura.

Presciente, como um passado sem futuro.

Meu avesso desce das estrelas, lúcido e frio.

Para que ninguém chore por mim

quando eu partir.



 

 







segunda-feira, 20 de abril de 2026



                        não quero mais amar


Não quero mais amar

Mas posso muito bem fingir 

De repente, pode ser até melhor

Sem cobranças, ciumeiras

Essas coisas que só atrapalham.


Tudo o que é demais, sobra

Ando cheios de vazios

Sinto remorso, mas faria tudo de novo

De outro jeito

Refeito, entre compensações e desenganos.


Eis meu coração

Deponho a respectiva chave

Nada mais tenho a dar

Além de uma esperança que já não tenho.





segunda-feira, 13 de abril de 2026


                               antagonismos



Em tempo se percebe que há tarefas

que jamais serão cumpridas. 

Que todo esforço se desfaz diante do austero

breviário de desilusões e desatinos.

Nunca se sabe o momento da mudança irreversível.

Quando o amor não mais compartilhado

se avilta

de tal forma

que nem o perdão se torna mais necessário.


O que parecia divino

dura o tempo que duram as fugazes magias.

Fazer durar em meio a tantos antagonismos

é como tatear às cegas.

Arriscando-se a tudo.

Sem certeza de nada.



quinta-feira, 9 de abril de 2026

 


                           profundo e imundo



Teus rompantes e silêncios dizem tudo

o que preciso saber.

Te entendo quando calas e te afastas.

Quando tua fúria se transforma em pedra, 

posso ver como és.

Uma parede, um muro, uma casa desabitada.


Lembrar de você me alegra e me entristece.

Na medida que não posso ter nada

além de tão pouco.

Promessas, expectativas, migalhas de afeto.

Profundo e imundo, meu coração se acostumou

a ódios e insultos.

Eu e tu.

Tu e eu.

Passamos tantas coisas juntos.

Até filho fizemos.

Me perdi em pleno gozo dos prazeres.

Quando o louco amor

virou tumor. 














                      a sentença


Desejos nunca satisfeitos fecundam o fruto 

proibido das paixões. 

Quando o ócio

O vício

O cio

Se recriam a fim de reciclar

o amor que se esfacela.


Você me tinha na palma da mão,

mas nunca deu valor.

Talvez por me achar apaixonado demais.

Confiante de que nunca te deixaria.

Mantendo em segredo tua vida dupla.

Viciada em redes sociais.

Sempre precisando ser vista e desejada.

Transferindo culpas e responsabilidades.

O teu ex era um sem futuro.

Todos te traíram.

E eu nunca estive a tua altura.

Nunca passei de um mero quebra-galho.

Ainda assim permaneci, passei pano, resignado

com as migalhas de afeto.

Até que o coração finalmente cansou.

E o fim do amor se desenhou. 

Quando a inquietação, a raiva, se transformaram 

em indiferença. 

Fria e inapelavelmente,

como uma sentença.
















 

terça-feira, 7 de abril de 2026

 

                 quando a raiva desaparece


Há dias em que a raiva desaparece de repente e, em vez do fogo que me mantinha de pé, fica apenas uma tristeza funda, silenciosa, quase sem defesa. E confesso que, às vezes, isso assusta-me mais, porque a raiva ainda me dá uma espécie de estrutura. Mesmo quando me endurece, ainda me protege. Ainda me permite dizer “nunca mais”, ainda me devolve alguma força, ainda me afasta daquilo que me feriu. 

Mas quando ela some, o que fica já não tem dentes. Tem apenas peso. É então que percebo que a raiva nunca foi o fundo, mas a camada quente por cima da parte realmente ferida. O que está por baixo não é vontade de regressar, nem amor mal resolvido. É luto. É a dor de ter acreditado tanto num lugar onde eu queria poder descansar e de ter descoberto, tarde demais, que ali eu teria sempre de sobreviver em vez de viver.

E isso entristece-me até aos ossos. É por isso que existem tristezas que não gritam. Apenas se instalam. Não pedem explicação, não exigem respostas, não querem drama. Limitam-se a evidenciar, com uma clareza quase cruel, tudo aquilo que não chegou a existir como eu precisava que existisse. E nesses dias, o que me dói já não é a pessoa. É a ausência daquilo que eu quis tanto encontrar nela. A raiva afasta-me. Mas é a tristeza que me obriga, finalmente, a aceitar a perda inteira.


José Micard Teixeira 

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