segunda-feira, 1 de agosto de 2022



                 a dívida





Amanhece limpo o dia lavado pela chuva.

Como deve ter sido quando Ulisses voltou para sua 

Penélope intocada.  

Santa Penélope ! Padroeira (madroeira ?) das mulheres fiéis.


Perorações gentis intercedem por nós.

Não é preciso ser Hércules para carregar o peso do mundo.

Espiga de milho ou girassol ? O sol que resolva.


A faca como parábola de vida, como nos tempos das ciladas 

frias e cálidas.

Fogueiras lúdicas, vulvas fulvas em especulações fálicas.

A verdade de cada um morre quando a noite desmaia.

Remorsos letais furtam tímidas alegrias. 


Na desagregação dos sentimentos, a náusea da podridão

do mundo.  

Uma ponte, uma rosa, cristais intocados, laranjais quiméricos : 

aqui jaz a fábula perfeita. 

O cansaço acende os archotes dos vieses inexplorados. 

Um lamento sombrio apaga a noite.


Feridas que se curam com pranto rompem os mistérios. 

A noite perpétua, a alma balsâmica, o coração ferido, no fundo, 

não há nada pelo qual valha a pena chorar.


Buscando a dureza do meu destino, 

à sombra de meus desígnios, anseio tão somente quitar 

minha dívida. 

Por ser mais feliz do que mereço. 






 








 






 





                         o descanso do guerreiro




Segunda-feira talvez eu faça, ainda não sei.

Melhor seria na terça.

Se bem que quarta é o ideal.

No máximo quinta...

De sexta não passa.

Porque sábado e domingo é sagrado,

descanso do guerreiro.

Ninguém é de ferro, né ?





 

domingo, 31 de julho de 2022



                     o homem arbitrário





Sofre sem dor

Se acovarda sendo audaz

Celebra a vida, esquecendo-se dos mortos

Entrega-se aos prazeres, desmerecendo o amor

Aprende fazendo loucuras

Descobre-se ateando fogo às vestes

É sempre assim, o homem e a besta que o possui.

O homem e seu dinheiro

O homem e seus segredos

Dividido pelo mundo

No tempo inaudível

No tempo que goteja

Homem cego, mutilado, corrompido

Acende um cigarro, sente naúsea do mundo

Vê nascer dentro de si o coração de pedra

Castigado pelo azul do verão

Crucificado na cama nupcial

De ansiedades vãs sofre

Herói e covarde

Duro e leal, ama os conflitos, atrás da fábula perfeita

Continua, não desiste, não esmorece

Persegue a própria sombra como um cão perdido

O homem-parasita

O homem-latrina

O homem-vampiro

O homem que chora, é gentil, intrépido

De todas as matizes, com seu coração arbitrário

Que, de fato, é bastante e demasiado.

Seu erro foi ter nascido. 



 



 




                 mais do mesmo





Falta instrução.

Falta educação.

Falta vergonha na cara.

Falta asseio, indignação, vontade.

Em suma, falta-nos tudo. 

O que esperar do futuro, senão mais do mesmo ?

Governantes inescrupulosos, vilipêndio, assalto 

aos cofres públicos.

"Cada povo tem o governo que merece". 

Josepf-Marie Maistre(1753/1821) 



 

sábado, 30 de julho de 2022



Com o consentimento dos deuses (orixás ?),

outros tempos virão. Diferentes destes.

E lamentar-se-á que tenham passado.

Porque o futuro é ainda mais tenebroso.






                     a gema primeva





Em meus passos, nem tão tardios, nem tão lentos,

retrocedo ao que permanece em mim

além do tempo.

Ao que estou sempre a recorrer. 

Para me sentir mais digno, conformado 

com o que ficou irremediavelmente inconcluso. 

Mas que não deixou de ser belo.

Mesmo os erros, as mentiras, e todos aqueles

que compartilharam suas cruzes comigo.

Rostos que pairam acima dos estragos do tempo,

legado inexpugnável num mundo cada vez

mais inabitável, com seus roteiros de pedra e ratos

de laboratório.

No pedestal do tempo, talvez ascenda ao céu 

o brilho da gema primeva.  

 


  




 

sexta-feira, 29 de julho de 2022


                    à imagem e semelhança



                 



Vivo de lembrar.

Lembranças perpassadas de luz, desabitadas

paisagens que reverberam em redundante desolação.

Como uma floresta em chamas.

Recolho-me no estio da antiga claridade, preso ao limbo

que convida ao olvido, 

mas que sempre renasce e se propaga.

Quando tudo conspira para matar as antigas alianças,

ainda ansioso pela vida, 

sinto-me parte de alguma existência.

À imagem e semelhança dos desterrados, dos mortos

sem lágrimas, meus irmãos, 

o pó do mundo.  




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