sábado, 19 de agosto de 2023



                 a vida de concreto



O concreto empareda o abstrato, congela os sentidos.

Paredes de concreto abraçam carências severinas.

A vida de concreto come a fome.

Deixa-se habitar em cova grande.

Predisposta às litanias infames, em ventres lascivos. 

Algoz de silenciosos martírios.

O gozo das orgias manufaturadas vagam no tempo gelado.

Ríctus de medo se cumprem com vagar, sob arquiteturas 

que se fundem.

Com vagar, Deus e o mundo conjecturam cláusulas 

humilhantes.

O dissolver de brasões suga a memória espandongada

de revolta.

O concreto cala o silêncio, nutre o amor com coreografias 

obscenas.

Os fatos calam-se em minuciosas certezas.

Para continuar, é preciso conhecer o caminho que conduz

às altas torres de inumeráveis fábulas.

Calam-se as certezas, as palavras ferinas e duras.

Luzes obscuras se multiplicam.

Exéquias cobrem a nudez do amor.

Paredes de concreto bebem o fel entre cantos e ascos. 







  

quinta-feira, 17 de agosto de 2023



               meu ser me bole




Meu ser me bole.

Ora se abre, ora encolhe.

Entre dias humanamente cinzentos

e o sereno gosto de viver.


Sou como sou, sem mais nem menos.

Nada me falta, além do que perdi.

O que eu tinha, sem saber.

A ilusão de ser feliz.


Meu ser me bole.

Já não estranha nem renega 

o apego ao remanso, 

o gosto pela solidão macia

à espera de um fim tranquilo.





                           a fadiga da vida



Inocentes

Porque assim nasceram

Em graciosa desdita ou firme sortilégio

Talhados em imperfeitas etimologias

Sob o tribuno das conveniências

A violência harmônica do mundo engendra

pequenos apocalipses

A desrazão e o desespero demarcam a condição humana

O bem viver prescinde de referendos que sangram

O amor há que se armar

O tempo para tanto é escasso

Os corpos reivindicam a primazia das indecências

Vêm bater em longas fagulhas, exalando feéricos furores

Luzes de braseiros acossados por loucas ternuras

batem à porta em noites infelizes.

O frenesi dos sentimentos nunca está sozinho.

Planos destruídos, desejos corrompidos desovam queixumes

moribundos.

À força, as duas pontas do tempo retomam o cortejo

ancestral do recomeço.


"A vida se consome na fadiga sem saída" (O Homem Restolhado/

Gaston Miron)







 







                     o canto do sabiá





                            foto Ivan Berger


um canto canoro 

no espesso arvoredo

salta de galho em galho

executado à base da goela

dispensa palavras e maestro

em afinado solfejo

ecoa em espirais

ilesa solitude

na mais plena

inocência e virtude

nem Bach conseguiu imitar

o canto do sabiá.





                         spirit de porks



O drama está para a tragédia como a farsa para a comédia.


          Ladrão que é ladrão,

          de profissão,

          não escolhe ocasião.


Há quem diga que o amor

é um estado de espírito.

Spirit de porks.


             O desejo obscuro

          gosta do escuro. 


Essas moças quase nuas

podem ser tudo.

Menos tuas...


            

quarta-feira, 16 de agosto de 2023




                  o rosto no espelho





Um homem só em sua casa, 

assombrado pelo delicado tempo que tudo enovela,

encara o rosto de um suicida no espelho.

Saturado de uma vida que não entende.

Perdido em paraísos artificiais.

Faz-se de forte, ignorando a besta consoladora

dos aflitos.

Rastros de passos erradios circundam o caminho

sem volta.

A solidão é o acalanto que mascara as mágoas

possuídas por dádivas descontentes.

O agora é onde o eco inverte a fala, e o rebojo 

das coisas insensatas ignora o extinto.

Nos hemisférios da alma, a desagregação da vontade

constrói se desmanchando.

Continuar, emparedado pelo tempo, adquire ares de façanha.

Mas o mundo devassado e imperfeito assim o exige.

Que o rosto no espelho esqueça quem era.









 

terça-feira, 15 de agosto de 2023




                        o sopro da vida




 


O sopro da vida é leve

                           suave

                                        breve

Dura e perdura impregnado de memória.

Nada se retém.

Nada se salva na matéria finita que depõe 

guerreiros e armas.

Somos o rio de Heráclito.

Somos o pó incalculável que renasce feito Fênix.

Somos as migrações que forjaram os povos e mapas

da saga humana.

Somos os exércitos que escreveram e reescreveram 

a História.

Somos os templários que perpetuaram o nome de Cristo

com suas atrozes Cruzadas.

Somos os povos escravizados que sofrem e calam.

Somos os impérios que se apagaram como um relógio de sol.

Somos aqueles que, misteriosamente, sobreviveram 

à elevação das águas do dilúvio.

Somos aqueles que viram a morte de perto nas pestes

e guerras exterminadoras.

Somos aqueles que decretam a morte dos infiéis, sob as crenças

mais sanguinárias.

Somos aqueles que estiveram na Odisseia de Troia, 

imortalizados em Termópilas.

Somos aqueles que construíram as enigmáticas pirâmides.

Somos aqueles que a história não fala.

Somos aqueles que inspiraram Balzac e Kafka.

Somos aqueles que saudaram Hitler.

Somos aqueles que idolatram ídolos de pés de barro. 

Somos aqueles que trilharam os caminhos da penitência,

como ensina TS Eliot.

Somos aqueles que recordam os dias felizes.

Somos aqueles que caminham lentamente para o cadafalso,

pelos mais diversos crimes. Ou nenhum.

Somos aqueles que brincam com seus filhos, na volta

do trabalho.

Somos aqueles que ignoram os toscos labirintos da razão. 

Somos aqueles que suportam com estoicismo 

as privações e desgraças.

Somos aqueles que colecionam madrigais de ternura e

dilemas pacíficos.

O sopro da vida é eterno.



 

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