sexta-feira, 25 de agosto de 2023
quarta-feira, 23 de agosto de 2023
minha cruz
Não há nada de especial nesses dias
desabitados, sem futuro.
No entanto, algo ainda reluz à luz crua do universo.
Nos elementos etéreos que colecionam
prelúdios infinitos.
A paz de quem se perdeu em solidões durante a vida.
Seria bom não ter memória, não tivesse o melhor ficado
para trás.
A condenar-me ao desejo vivo mas proscrito.
Minh`alma inquieta me desterra.
De tua morte, sou inocente.
Teu destino vivido e falecido é testemunha
da fraqueza que me fez forte.
Minha cruz é envelhecer.
viver sem viver
Há quem viva pela metade, sem explorar seus potenciais
e possibilidades.
Há quem viva a vida dos outros, em detrimento da sua.
Há quem viva do passado, coitado.
Há quem viva acomodado, dando desculpas, empurrando
com a barriga.
Há quem viva insatisfeito, reclamando de tudo e de todos.
Há quem viva obcecado por trabalho, pessoas, paixões.
Há quem viva de subterfúgios, mentiras, ilusões,
fugindo da realidade.
Há quem viva na solidão, acompanhado ou não.
Há quem viva vegetando.
Há quem viva chapado, drogado, subordinado
a um vício qualquer.
Há quem viva só para fazer o mal, prejudicar
e sacanear os outros.
Há quem viva como verme, parasita, sanguessuga.
Há quem viva sem viver.
Infelizmente, a grande maioria.
Onde você se enquadra ?
segunda-feira, 21 de agosto de 2023
juízo final
Vão tentar te fazer acreditar que você não presta.
Vão tentar te denegrir, te desmerecer.
Vão tentar te derrubar, só pelo prazer de te ver na pior.
Vão fazer de tudo para te prejudicar.
Intrigas, maledicências, até para alienação parental
vão apelar.
Vão mentir tão convincentemente que até você vai acreditar
que mentem sinceramente.
E tudo, para quê ? Para tirar proveito, auto-justificar
a verdadeira canalhice, o mau-caratismo,
a traição ignóbil, o juízo final do desamor.
Não há como defender-se desse amor indefensável.
Feito de promessas sem futuro, aviltado por pecados sem culpa,
malsinada síntese de afetos natimortos.
Foi-se o amor, ficou a mágoa, a revolta, a raiva,
a farsa engendrada para escamotear a profanação
de uma história que não merecia
final tão sórdido.
Na qual você figura como vilão,
aos olhos de quem te traiu.
o ápice da história
( ou o buraco é um pouco mais embaixo )
A grande aldeia global de McLuhan se estreita,
se transporta instantaneamente.
Invade lares, pátrias, ignora fronteiras,
alheia a contrastes e discrepâncias nunca vistos.
O planeta evolui involuindo.
O mundo se interconecta
se evolando
se eximindo
cohabitando sub-mundos, paraísos artificiais.
Morticínios e genocídios banalizados nos breaking news,
enquanto a distinta plateia se deleita com o show business.
Astros do ludopédio monopolizando multidões, faturando
milhões, inevitável não pensar nos bilhões
que sofrem toda sorte de privações,
mas o mundo
nunca primou por ser justo, muito menos...humano.
A grande aldeia global apenas ampliou a desigualdade.
A violência e a criminalidade ganharam novos contornos,
golpistas se multiplicaram, incautos é que não faltam.
O mundo agoniza sob a pantomina de sempre.
A Ucrânia é dizimada, a terceira - e apocalíptica -
terceira guerra mundial se avizinha, mas todos
agem como se nada estivesse acontecendo.
Só se ligam no futebol,
no besteirol que grassa nas redes sociais,
nas putarias on line.
Ninguém tem as mãos limpas, o homem engana
o homem, conquanto a vida engana a vida.
É tempo de frágeis afetos e compromissos inconclusos,
escandidos em bélica paciência.
O sangue fresco de novas auroras flui além dos enganos.
A secular injustiça não se resolve.
Nada além da tola presunção de vivermos
o ápice da história.
sábado, 19 de agosto de 2023
o correlato e o aludido
entre o canto e o bailado
entre o seco e o molhado
entre o livre e o amarrado
entre o liso e o escarpado
entre o aclamado e o coibido
entre o roçado e o aplainado
entre o contido e o exibido
entre o inocente e o condenado
entre o ladrão e o delegado
entre o rico e o pé rapado
entre o rejeitado e o assumido
entre o casado e o separado
entre o achavascado e o mal-ajambrado.
entre o manco e o sarado
entre o asseado e o puído
entre o acalorado e o abrochado
entre o novo e o remendado
entre o vestido e o pelado
entre o coroinha e o prelado
entre Leblon e o Corcovado
entre o cupido e o pecado
entre o amado e o odiado
entre o loquaz e o calado
entre o lindo e o esfarrapado
entre o opaco e o iluminado
entre o folgado e o apertado
entre o inocente e o condenado
entre o libertino e o abnegado
entre o limbo e o sombreado
entre o perdido e o achado
entre o gremista e o colorado
entre o alvoroço e o estagnado
entre o livre e o arrombado
entre o chanfrado e o bitolado
entre o criado e o crismado
entre o catado e o cavoucado
entre o coitado e o azarado
entre o suave e o ardido
entre o contido e o bramido
entre o surdo e o mudo
entre o arcano e o bardo
entre o abortado e o cagado
entre o evadido e o ungido
entre o certo e o errado
o correlato e o aludido
estão sempre mudando de lado.
a vida de concreto
O concreto empareda o abstrato, congela os sentidos.
Paredes de concreto abraçam carências severinas.
A vida de concreto come a fome.
Deixa-se habitar em cova grande.
Predisposta às litanias infames, em ventres lascivos.
Algoz de silenciosos martírios.
O gozo das orgias manufaturadas vagam no tempo gelado.
Ríctus de medo se cumprem com vagar, sob arquiteturas
que se fundem.
Com vagar, Deus e o mundo conjecturam cláusulas
humilhantes.
O dissolver de brasões suga a memória espandongada
de revolta.
O concreto cala o silêncio, nutre o amor com coreografias
obscenas.
Os fatos calam-se em minuciosas certezas.
Para continuar, é preciso conhecer o caminho que conduz
às altas torres de inumeráveis fábulas.
Calam-se as certezas, as palavras ferinas e duras.
Luzes obscuras se multiplicam.
Exéquias cobrem a nudez do amor.
Paredes de concreto bebem o fel entre cantos e ascos.
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