domingo, 24 de março de 2024


                          

                               gratidão





Por todas as coisas que tive e me fizeram feliz.

Por todas as coisas que ganhei e perdi.

Por todos os momentos que passaram como fogo

e látego. 

Por tudo que aprendi e guardei para além 

das agônicas provações.

Por toda vez que escapei do pior, que resisti aos males 

que absorvem e fermentam.

Pela sorte de ter todos os sentidos aguçados,

de ter vencido a tristeza tenaz, conhecido a benção

da solidão voluntária e libertadora.

De sempre ter dado a volta por cima, como um mergulhão

que volta à tona.

Por ser como sou.

Humano.

Inquieto.

O grão coração crepitando acima de tudo.

Amoroso como um tigre com sangue no focinho.

Por tudo, Senhor, dou graças.









                   o estuário amoroso





Nunca se sabe o que fazer com a vida.

Vivemos cercado de dúvidas, e eventualmente de dívidas.

E sem dúvida, o que não acontece é a única coisa

que permanece.

Jogamos o jogo para continuarmos perdendo.

Para ferir e sermos feridos.

Para gerarmos novas vidas e enterrarmos nossos mortos.

Passam os dias, transfigura-se a matéria,

é, pois, no estuário amoroso que tudo se resolve.

Para o bem ou para o mal.

O amor que passou, o amor  que não aconteceu.

O que foi e não foi aquilo que foi, 

de uma forma ou de outra

continuará existindo.

Mesmo que nunca mais sejamos os mesmos.











                  bucha e canhão





A verdade é que nunca nos entendemos.

A não ser nada cama.

Embora para mim, nunca tenha sido apenas sexo.

Você foi um desafio que teimei em decifrar.

Fui muito além do que podia imaginar.

Entrei no teu jogo até cansar.

Agora é você que cobra o que não posso dar.

Não porque eu não queira.

Somos como água e óleo.

Uma mistura explosiva.

Bucha e canhão.

Ambos sempre cheios de razão.

À maltratar o coração.

Até o sexo deixou de ser bom.

Já nem sei se ainda cabe reflexão.

Ou é hora de largar mão.










                     clausura sem prisão





As larguezas de meus itinerários se estreitam.

Eu e essa clausura sem prisão, que, sem amor,

afia a foice cega da minha poesia.

Profundo e imundo, meu coração se acostumou

à ódios e insultos.

Minha alma corcunda circunda o inaudito.

Vivo entre muros de arrependimentos e mesmices

convencionais.

O clamor das vitórias e dolos converte-se à inquieta 

alacridade das impermanências.

Ironicamente, tudo se perde na fugacidade das palavras.

Minhas verdades, embriagadas de sensações e equívocos

passados, fomentam desentendimentos crônicos.

Eu e tu, tu e eu, somos opostos que sarabandam apoteoses

de ilusão.

Tudo entre nós remonta à alucinações cruciantes.

Vivemos entre as escaramuças de nossos desiguais.

Não há esperança onde não há diálogo.

Minhas culpas e meus desatinos entretecem-se

nas ramas de tuas prevenções.

Engravidei-te em desespero de causa.

Para que uma filho possa abrir novas searas.

Ou nos afastar de vez. 




 








quinta-feira, 21 de março de 2024



                     animal transvestido de gente





Não esperem que eu seja coerente.

Muito menos racional.

No fundo não passo de um animal 

transvestido de gente.

Às vezes inconsequente.

Às vezes beligerante.

O meu melhor nunca é suficiente.

Nem a mim satisfaz.


Trato a mania de perfeccionismo 

a socos e pontapés. 

Me recuso a viver como um peixe no aquário.

Uma vida condicionada por antigos dissabores,

ex-rostos, ex-amores. 

A dura labuta não justifica viver na mesmice.

Mesmo apagando como uma vela no fim,

me recuso a definhar.

Cuido do corpo, da aparência, e principalmente do intelecto.

Acalentando sonhos como um quixote 

a perseguir diletos moinhos de vento. 







  














 

quarta-feira, 20 de março de 2024


                               novos erros





Faça sol ou faça chuva, estamos sempre disponíveis 

para novos erros.

Cada vez piores. 

A chamada sabedoria da velhice é uma barca furada.

Faz água por todos os lados.

Falhanços que apagam aqui, acendem acolá. 

A ação erosiva dos despautérios rói a corda do bom senso.

À guisa de viver, o lema é recuperar o tempo perdido.

A vida carece de ser um pouco suja, já dizia DH Lawrence.

Novos erros são bem vindos.

Alguns até conscientes, premeditados.

O maior erro é não tentar. 











terça-feira, 19 de março de 2024



                 cuspir ou engolir






Se impossível for, inventemos, ora pois.

Impérios e adultérios insuflam a catapulta.

O colapso iminente agasalha crisálidas temporãs. 

Com quantos quadriláteros se faz um cubículo ?

Calma, tretas desvendam-se a revelia dos fatos.

Guelras e goelas solfejam ante catervas niilistas. 

A pausa dos despautérios levita calcanhares de Aquiles.

O intrépido espantalho saúda a desmemória dos paspalhos.

Parasitas galgam os degraus da sabedoria virtual, expelindo 

proezas em podcasts e em mentorias

regiamente remuneradas.

O universo preciso precisa ser inexato para fazer sentido.

O ato, de fato, não é apenas falho mas caricato.

Na vida como nas urnas eletrônicas, o total apurado nem 

sempre condiz com o resultado.

Tudo o que se refaz, se repete.

Babel cumpre bem seu papel, continuamos não nos entendendo.

Uma coisa é certa : tamoios e timbiras sentiriam vergonha 

de nossa pusilanimidade.

O câncer de Brasília frauda até o diagnóstico.

Bater continência para ladrão, que cagões !

Entre Pirro e Sísifo, fico com Parmênides. Com louvor.

Lanterna à mão, as luzes do entendimento bruxuleiam.

Onde não há provas, planta-se, ora bolas.

Quem nunca atirou a primeira pedra tem o voto de minerva.

Sabedoria popular é aquilo que a gente fala mas não faz.

Não lhes parece que os ministros do supremo vivem 

de molestos seres e pareceres ?

Prisões ilegais, arbitrariedades, pré-julgamentos : tudo

agora é em nome da democracia.

Ou seria a democracia do demo ?

Só nos resta cuspir ou engolir.







  







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