vazio
Tua indiferença
já não me machuca.
Assumo o vazio que me circunda.
Para que o nada me preencha.
puta velha
Nada acaba quando termina.
Vivemos de esperar o que não chega.
O que nos antecede vive burilando o coração
sem tê-lo.
Não há pressa na delicada praxis dos afetos.
Saneadas de calma e de luz, as histórias se repetem
sem acabar, revestidas
das mesmas incertezas e angústias.
Começo, meio e fim.
Antes, durante e depois.
Entre o princípio e o epílogo,
tudo se ajusta e desconjumina.
A vida é uma puta velha
em traje de gala.
Nossas dores são algemas incrustadas de feridas catatônicas.
Nossos amores contam seus passos envoltos em trapos amorfos.
O que há para fazer salvo viver como se não houvesse
outra vida ?
Incógnito, o coração indomável cavalga hipocampos de trânsfuga.
O presente, um halo da eternidade, se agarra ao póstumo acerbo
de potestades.
Sonhos drenados repartem os silogismos do abandono
em ligas de tungstênio.
No horizonte precário do existir, passam com atraso os cortejos
mancos das elegias.
Meus olhos transformam tempestades em escamas, como
um rio que bebe as nuvens.
Me defendo das imposturas da fé deixando para trás
a inconsútil fratura da alma.
Livre da falsa auréola das virtudes, mijo bazófias politeístas.
Não sou nem sombra do que fui, mas meu sêmen cansado
ainda faz filhos.
o pecado original
De dor a humanidade entende.
Sentir dor, infligir dor, sina recorrente
de um mundo doente.
De gente que mata, tortura, padece de todos os males,
que olha com desdenhosa piedade
o mal que semeia.
É sempre o mesmo ritual macabro que nunca passa,
diante de um deus de pedra que legitima todas
as formas de morte.
Tudo remonta ao pecado original.
Que condenou a humanidade a penar eternamente.
Somos paridos com o mal no coração.
O amor acaba mas o ódio não.
Que o diga os filhos do Tamerlão, do Alcorão.
Proibidos de amar quem não professa
a mesma religião.
O mal está em toda parte.
Os bons pagam pelos maus.
Destruímos, torturamos, matamos, inocentes
como crianças que não sabem o que fazem.
"Perdoa, pai, eles não sabem o que fazem", atestou
o Crucificado, fiador de uma doutrina de perdão
que anula o passado.
De um mundo perverso, pervertido,
erigido à ferro e fogo,
que não merece ser perdoado.
último ato
Vem de longe o paradoxo em que me afundo.
Encurralado no círculo vicioso da vida, me desterro
do destino traçado pelo livre-arbítrio.
O espelho partido do tempo decifra a máscara definitiva,
prenhe de insólitos disfarces e provisórias certezas.
Pairando sobre as verdades que umedecem
a sobrevida sobranceira.
Meu breviário de desatinos apascenta o coração.
Madureço lúcido, lúdico,
hóspede do tempo,
passageiro do mundo,
liberto do amor que cresce para dentro.
Que importa se tudo é fugaz ?
Pensamos diferente mas somos os mesmos animais.
Pervagando sufrágios e presságios celestes.
O amanhecer sem futuro perscruta o repentino despertar,
para que o silêncio amoroso acolha
o souvenir das brevidades.
Meu ego em frangalhos encena o último ato nessa terra
que só fez amar-me.
Do bulício do mundo me aparto em paz comigo mesmo.
A solidão, a chuva e os caminhos percorridos ornamentam
meus últimos passos.
Para assim ser esquecido.
Como se não tivesse existido.
o quanto sei de mim
Faço do meu dizer um espelho invertido.
Cavalgo unicórnios a passos lentos,
para que o gozo consentido preencha o dom da alma.
O sonho em busca das asas de Pégaso entretece
o esplendor da vida.
Quem me sonha impõe seu remorso vagamente triste,
antes de se perder no sonho.
O quanto de mim apequena varandas e alpendres
amolda contornos de ourives, a fim de sugar o sol
pelas frestas.
Há neste gênio cativo a ira sagrada que o gosto
gentil da claridade acolhe em suas entranhas.
O quanto sei de mim vive alternando a honra e
a vergonha.
Meu espírito errante amontoa molduras e cátedras,
no afã de salvar-me da veneranda velhice.
a noite eterna
a noite eterna chega devagar
a vida passa devagar
até tudo passar
e você de repente acordar
sozinho e impotente
sozinho e doente
sozinho e insignificante.
os últimos grãos da ampulheta escoam
em terna volição
a energia fugindo do corpo
o cansaço de tudo alquebrando o espírito
porque tudo resulta inútil
nada mais importa
missão cumprida ou não.
logo tudo terá desaparecido
e você será aos poucos esquecido
como se não tivesse existido
um grande vazio é só o que permanece.
da calmaria ao tormento Mais cedo ou mais tarde, os dias de tormento chegam. E não há nada que s...