quinta-feira, 1 de maio de 2025


                             metamorfoses





Nada mais difícil do que ver o mundo

pelos olhos dos outros. 

Medir, sentir, sopesar sob o mesmo prisma.

Arguir silêncios e astúcias.

Absorver toda forma de vida como se fosse única,

una, unívoca. 

Entender as razões alheias, por mais absurdas 

e estapafúrdias.

A fim de elaborar um entendimento exato e seco.


Ver o mundo pelos olhos dos outros.

Para entender seus motivos.

Para ser múltiplo e indivisível.  

Abrangente no presente inconcluso.

Complacente no passado impreciso.

Sobranceiro como um corpo de baile.


De dentro, por dentro, as palavras sem ventre

inventam o lusco-fusco da noite,

as bordas dos penhascos,

os cascos surdos

de todas as coisas que habitam a véspera.

Que doce alento o inexistente abriga ?


A transparência dos dias segrega os recessos da vida.

Inoculada de secretas possessões.

O aparato sem sofisticação de acontecimentos inadiáveis

engendra a gênese das palavras.

Tudo se perde e se desfaz na roda-viva da convivência.

Metamorfoses são sempre bem-vindas.

Para que possamos ver o mundo pelos olhos dos outros.



quarta-feira, 30 de abril de 2025



                    nódoa


Uma cantiga antiga perpassa o tempo.

Chega como um pássaro

que constrói seu ninho

com meticulosa precisão.


Chega com a linguagem do vento,

limpando-se do limo dos crepúsculos esquecidos.

Tão paciente como um navio solitário,

transpondo horizontes e nuvens

como se tivesse a vida presa na garganta.


Uma cantiga antiga, há muito esquecida,

vem de algum lugar carente de gestos e roteiros,

ferindo e conferindo

a própria beleza esmaecida. 

Ainda assim evocando as coisas mais ternas,

face a face

com seu disfarce de fera.


Agora que a eterna inquietação do amor

encontra o seu canto,

tudo me leva a ti.

Nos acordes dessa cantiga amiga, suja de terra,

cinza e saudade, o que passou já não conta.

A antiga mágoa hoje não passa de um simples nódoa.




terça-feira, 29 de abril de 2025


                  dois pesos e duas medidas



Mais do que os outros,

somos nós próprios que nos engamos. 

Acreditando no improvável.

No impossível.

Abusando do vitimismo.

Com traços de narcisismo.

Para tudo temos desculpas.

Os sacanas são sempre os outros.

Esquecidos de que para os outros, nós somos

os outros.


E ai de quem discordar.

Sempre com dois pesos e duas medidas.

Sem se dar conta do ridículo

de querer ser a palmatória do mundo.

Em que tudo de ruim é culpa dos outros.

Esquecidos de que para os outros,

nós somos os outros.

 



*musicado em 28/04/2025

                          num piscar de olhos




Desconfio das pessoas bem resolvidas.

Que se dizem em paz com a consciência.

Capazes de lidar com qualquer situação.

Porque ninguém é safo assim.

Podem até pensar que sim, mas a verdade

é que todos temos pontos fracos.

Coisas a esconder.

É tudo uma questão de tempo para o jogo mudar,

a vida virar de cabeça para baixo.

Num piscar de olhos, tudo vai água abaixo.

A paz, a soberba, a arrogância, vai tudo 

para o caralho.

É só a vida querer.

É só a vida cismar.

Para o jogo virar.

Num belo dia, você vai olha no espelho

e não se reconhece.

E sem máscara, sem disfarce, vai desabar.

Aproveite, portanto, enquanto pode.

E torça para que esse dia demore a chegar.

Porque vai chegar.

Num piscar de olhos...




                        aquém de coisa nenhuma



Sou um tipo vulgar de Don Juan.

De tanto me apaixonar, esqueci de como se ama.

A estória de meus amores é uma mistura

de "infelizmente" com "sinto muito."

Como todo amante que às paixões se entrega,

ganhei o direito de viver sem lógica.

Orbitando entre as zonas erógenas, 

entre coxas e ancas perdido,

ruminando o ardor como se fosse amor.


Vem de dentro e não resisto ao desejo enrolado 

às avessas,

ensolarado e taciturno,

que fala em silêncio

funde e se consome

como a ferrugem das coisas.


Quanto mais me abismo,

mais sem rota e sem rumo me vejo.

Desabitado como uma ilha perdida no oceano.

Longe e perto como um pontinho obscuro 

no mapa-múndi. 

Aquém de qualquer coisa.






domingo, 27 de abril de 2025


                    o cachimbo da paz





Já não lembro do teu rosto

O passado jaz no fundo do poço 

Enfim posso viver

e ser eu de novo

Livre e limpo

Tristeza e solidão não consomem mais

meu vigor.

Esqueci a musa da minha história

Fumei o cachimbo da paz comigo mesmo

De tudo que não fiz me declaro culpado

Espero um novo amor

como quem não tem um álibi

Já não lembro do teu rosto

Do resto lembro tim-tim por tim-tim. 




                         miragem




O olho inventa o mal

O chão cria paisagens

O vento invade os espaços

O mar abraça os sargaços

O arco-íris beija o efêmero

A fé brilha sem rosto

O espelho ignora o desejo


Eu sei que logo alguém dirá

que tudo não passa de miragem, 

e a paz uma quimera.

Que a vida é uma sequência de histórias

confusas, em que chafurdamos 

em meio ao marasmo das inconstâncias

E talvez seja a mais pura verdade


Minha canção é meu disfarce

O choro de quem sangra por dentro.

Alado, felino, maroto.

Um velho que ainda pensa

ser um garoto.



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