Descartável (versão estendida)
Muita calma nessa hora.
O futuro chegou, esteja preparado.
Te ensinaram a ser útil.
Agora te ensinam a ser prático.
A viver no automático.
O coach garante: toda crise é oportunidade.
Principalmente para o coach, é claro.
Dizem que o futuro é dos criativos.
Sem chefes, sem horários.
Te ensinam tudo, menos o pulo do gato.
Mais do que nunca, o mundo continua sendo
dos espertos.
O algoritmo te conhece melhor
que tua mãe.
Sabe o que você quer antes mesmo
de você querer.
Só não sabe por quê.
Calma, calma, está tudo sob controle.
De quem, ninguém sabe.
O futuro chegou e já está de saída.
A evolução é isso.
Você aprendeu a escrever prompts,
e a máquina a tomar seu lugar.
Reinvente-se, requalifique-se, ninguém sabe
o que vem agora.
Aprendi que a gente vale pelo que faz.
Mas agora a máquina faz tudo.
Cria, ensina, faz canção.
Calma, evolução é isso.
Apesar de tudo, o velho modelo humano
ainda roda.
Lento, caro, fora de moda.
Leva nove meses para montar e vinte anos
para funcionar.
Promete e não cumpre, ama quem não deve,
na hora errada.
Precisa dormir, sente saudades de quem
nem foi embora.
Faz tudo errado e passa a vida se explicando.
Não há garantia, mas continua sendo fabricado.
Falha, quebra, esquece,
até ficar obsoleto e ser descartado.
Enquanto a máquina nunca cansa, nunca descansa.
Enquanto a criatura não se voltar contra o criador.
