domingo, 13 de agosto de 2023



                      auréolas complacentes





Quando, um dia, eu não passar 

de uma vaga lembrança,

certamente parecerei melhor do que sou.

Serei melhor do que jamais fui.

Antepassado do meu mundo arcano, marcado

por auréolas complacentes, estarei, enfim, acima

do bem e do mal.

Serei amado como nunca fui.

Serei louvado até pelo que não fiz.

Serei grande como nunca fui.



quinta-feira, 10 de agosto de 2023


                    as coisas nunca são

               como deveriam 





 

Há dias bons e dias ruins.

A maioria, tão somente suportáveis.

Alguns até valem a pena, malgrado o voo rasante 

de tudo que termina.

Sob o fogo cruzado punitivo da vida, consome-se o tempo

que martela a permissiva consciência.

Dormindo quase sempre na mesma cama.

Eludindo o cerco de arame farpado das coisas estimadas.

Afim de aceitar-se nos lugares que nos resguardam

e nos definem. 

Cohabitando cidades, ofícios, conflitos.

Atados a dias sem alvores nem renasceres. 

Repletos de engodos e demoras.


Tudo se evola na genealogia das tramas e emulações.

As coisas nunca são como deveriam.

As histórias se enredam como flores no campo, 

passando com pressa e sem culpa.

Dia e noite, a mesma agonia se refaz enquanto

a vida passa 

e "o louco que persiste em sua loucura

acorda são" (Blake).










 








sexta-feira, 4 de agosto de 2023

 


                até onde esse amor aguenta ?


 


O que nos une, nos afasta

O amor que não se basta


Não faz nada de graça

Vive de pirraça


Ambos pavio curto

Volta e meia eu surto


Você não fica atrás

Quando baixa o Satanás


É um tal de brigar e fazer as pazes

De dialogar somos incapazes


Eu cheio de razões

Você cheia de dedos


Eu marrento

Você desbocada


Ambos chegados num drama

Só nos entendemos na cama


Até onde esse amor aguenta ?





quinta-feira, 3 de agosto de 2023




                                 solitude




Nas asas do céu estrelado

Voa um girassol alado

Cuspindo pélagos ensandecidos 

Onde jaz o diverso mundo estiolado.


O caos dança em círculos

Sem remordimentos e utopias

Marcos da terra mastigam 

O silêncio das suaves cosmogonias.


As coisas se cumprem manchando a Criação

Poços de angústias desvendam os himeneus

Das belezas circunscritas e maltratadas

Que violam a precária aliança com Deus.


Minha alma vagueia serena e fria 

Na solitude dos segredos guardados

Viajante tranquila de elegias e cansaços

Em busca da verdadeira sabedoria.





  

quarta-feira, 2 de agosto de 2023



                    antes, durante e depois





Renasço a cada dia.

A vida esvaída de sentido nem por isso

é menos vida.

O pão nosso de cada dia provê a rude paciência.

As manhãs me arrastam como um animal

fiel a seu fado.

Ando entre o que finda a cada passo.

Crises de dicotomia roem o pensamento.

O silêncio do grito ensurdece.

Tão lúcido como se fosse de encontro ao inaudito.

Sem que nada se explique ou desenrosque.


Meu palco se desfaz no limite da ribalta.

A palavra ambígua desacredita o belo e o dramático.

Na absoluta incoerência dos desejos, a posse, o enlevo 

e o cansaço aviltam o amor.

Antes, durante e depois.






 








 

segunda-feira, 31 de julho de 2023



                        diásporas





A esfinge finge labirintos espalhafatosos.

Sofismas subvertem as tramas divergentes.

Meandros ensimesmam o que não nego.

Dizendo o contrário.

Farsas se opõe a memória.

A escória fuzila-se pelas costas.

Os fatos rejeitam provas quando o óbvio 

dispensa álibis.

Conflitos empíricos permeiam enredos oníricos.

O coração funde diásporas que tramam vilipêndios.

Na matéria finita, o desejo de evadir-se espia o caos

dos pactos inconsentidos.

Na ambiguidade, o olho azul quer descobrir-se.

O tempo-coletivo é señor de si mismo.

A alma suja conjura os devolutos lavradios.

Vivi para aprender que o ideal é sempre quimérico.

















 



                os vagares do amor



Ainda não é dia e os pactos se renovam.

Salmodias descobrem-se a luz crua dos deveres.

Farsas nefastas cultuam hábitos que se perpetuam.

A dor que cura ultrapassa o sofrimento.

Entre o novo e o limpo, o sujo asseia-se.

O esforço inútil desperta o que finda.

De tão triste, maldisse o sísifo.

O só pensar sobrecarrega o discernimento.

Velas ao vento, alea jacta est.

Os vagares do amor subvertem os desejos.

Nunca é tarde para o interminável.

O que não se explica, se estrumbica.

A tragédia do sexo é durar pouco.

Feroz e indisciplinado : meu amor 

não se presta a desagravos.






 










 

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