sexta-feira, 6 de outubro de 2023



                  o começo e o fim





Já não me vejo como antes.

Envelheci à sombra de mim mesmo.

Querendo ser o que nunca soube ser.

A falta de aptidão para o fracasso nunca me abandonou.

Tudo que fiz de errado deu certo.

Me arrastando pelas sarjetas 

meu verdadeiro eu encontrei. 

A banalidade da existência não sabe 

se eu nasci ou morri.

Em mim se imbrica o começo e o fim.

No pedestal do tempo jaz o jardim sepulcral

de Mallarmé.








domingo, 1 de outubro de 2023



                       o frágil equilíbrio das coisas





O frágil equilíbrio das coisas é o grande milagre

que se perpetua.

Calmaria e loucura convivem em perfeita harmonia.

Não obstante ser mais fácil odiar do que amar,

a vida só vale a pena enquanto o amor perdura.

Digo-o, hoje, mesmo tendo todos os motivos

do mundo para maldizê-lo.

Mas eis que o tempo reestabelece o frágil equilíbrio das coisas. 

Porque nessa vida o efêmero deflora os lirismos ingênuos,

e aniquila os sentimentos,

até aprendermos a viver sem depender deles.

Calmaria e loucura, tudo a seu devido tempo.

A vida é sábia. Nós é que complicamos. 

Estragamos tudo. 

Para só então aprender.

  




 



  


 




                       entre dois tempos




Há um muro invisível entre nós.

O nosso jeito de pensar têm muitas linguagens.

Tão perto e tão longe dos enredos sonhados.

De tudo há de surgir um entendimento duro.

Ainda que inventando o que não existe.

O afeto vulgar e triste emparedado entre dois tempos.

Construindo e desmanchando, continuamos 

porque não podemos senão continuar.

Porque não há mais para onde ir.

Nascemos um para o outro.




sexta-feira, 29 de setembro de 2023



                              à imagem e semelhança





Aconteça o que acontecer, nada fará mudar

o velho mundo sem nexo.

Eternamente fiel ao caos do qual resultou.

No espaço que nos cabe, a existência anda por um fio.

No fio da navalha, o desconhecido e o ignorado dançam 

conforme a música.

O agora não suporta o tempo desperdiçado.

Quando o amanhã se tornar presente talvez já seja tarde.

O contentamento afugenta a maldade, talvez por isso

dure pouco.

Afeto e fidelidade dormem em quartos separados.

Por pior que seja, o presente vale mais que o passado.

Toda crença corre o risco de ser verdade.

O que o dinheiro não compra, suborna.

Os pequenos são os maiores, de trás para frente.

O que é guardado não é compartilhado. 

Já passei da idade de ser feliz, mas continuo tentando.

A vantagem é que me contento com pouco.

Um  amor de segunda mão é melhor que nenhum. Ou não ?

O que me falta é intenso e danado.

Lendo, nunca aprendi nada.

Escrevendo, ganhei uma segunda vida.

Com preces e juntos, vamos longe.

A excitação vem de mansinho, ainda sinto saudades

do teu carinho.

Dizem que o amor não tem idade, e nem juízo, 

mas sem tesão não sobrevive.

Reminiscências fora de hora, baita bola fora.

De tão magro, lhe deram o apelido de "pouca sombra".

Afinal, a alma é ou não imortal ?

Queria poder responder, mas não tenho pressa.

Fraco e desonesto, fui posto porta à fora do sucesso.

Por inúmeros motivos, renasço todos os dias.

O problema talvez consista em descer ao invés de subir.

Desnudar as coisas é melhor do que viver de aparências.

Sou feito mais de lama do que de sangue.

Meu coração tresloucado parece embriagado.

Tudo faz do tempo restos que cheiram a naftalina.

O velho mundo sem nexo não passa de um fóssil

à imagem e semelhança

de quem o criou.























 




terça-feira, 26 de setembro de 2023


                                      

                             santa loucura





Longa vida aos súditos.

Bendito tu que de esperanças se insurges.

O que perdes ganhas em humana penitência.

Não sois mais que a derradeira Bastilha de findar infindo.

A sorte, trevosa e cambiante companheira, abrange

todos os cantos e recantos que se enlaçam sobre 

os clamores.

Ave, companheira imemorial e soberana do sem-fim.

Teus apelos e gritos roucos perpassam as imposturas

que deslindam a morte do futuro.

A força de teu ventre floresce na alquimia das entranhas.

Para que a santa loucura um dia faça sentido.

E o tempo a ignorância conjure.



segunda-feira, 25 de setembro de 2023



        poema sem porto





O nosso silêncio me aproxima do que ignoro.

Os pensamentos envoltos em trapos

afastam uma grandeza pensada que morre comigo.

O mistério antigo e forte fala por mim e por nós.

Meu poema sem porto constela crimes hediondos.

Ausências que maltratam a consciência evolam o amor 

incapaz de suprir.

Porque o clamor do luto e dos segredos corrói as entranhas.

A memória de um morto se interpõe a mudez do Gólgota

que ilumina os dias.

Não há ninguém que não sofra por um filho ingrato.




domingo, 24 de setembro de 2023


                                        o elixir dos deuses


 




Que dia maravilhoso !

Que privilégio poder desfrutar desse elixir dos deuses.

Comungar com a natureza em sua plenitude.

De posse de minhas faculdades mentais, com saúde, 

disposição. 

O que mais poderia querer da vida ?

Dias mais alegres ?

Mais fartos ?

Mais glamourosos ?

Dias mais gloriosos, como no esplendor da juventude,

no apogeu maturidade ?

Sim, talvez houvera dias mais memoráveis 

que esse domingo atipicamente quente,

de fim de inverno.

Mas, seguramente, nenhum em que me senti

tão gratificado por tudo que a vida me proporcionou,

e que ainda proporciona.

Sem me sentir credor nem devedor de nada, 

apenas

e tão somente

em paz comigo mesmo.



 



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