segunda-feira, 2 de junho de 2025


                              prodígios                    


Há sempre um ritmo oculto

à reger as coisas.

Nada acontece por caso.

Nem o acaso.

Cada caso é um caso.


Todos os seres vivos se inventam

e se reinventam

conforme as circunstâncias,

em seu devido tempo.

Plena e insurgida, a vida cumpre-se e gasta-se

em seu múltiplo existir.

A cada instante o novo e o velho

se cruzam

para engendrar o precário presente.

A cada instante a vida começa e recomeça.

Ou acaba.

Enquanto prodígios acontecem.



sexta-feira, 30 de maio de 2025

                       

                    amor radioativo





É mais forte que eu

esse sentir

que me domina

me arrebata

me subjuga.


Às vezes até penso

ser capaz

de superar, esquecer.

Mas logo me arrependo,

volto atrás,

me humilho,

peço arrego.


Meu calvário é ruidoso e demasiado.

Por tudo ser intenso demais.

Nosso querer, minha impaciência, 

tua inconstância.

Já não controlo o que sinto.

Vou de um extremo ao outro,

euforia, cansaço, desgosto.


Renunciar tornou-se imperioso.

Mas é mais forte do que eu

esse querer alucinado e radioativo.

Mistura de amor e compulsão.

Minha perdição. 

Minha razão de viver.

Louvadas sejam as coisas

que se restauram

a cada amanhecer.




quarta-feira, 28 de maio de 2025


                           meu coração é meu santuário




É bom ouvir os segredos do silêncio.

Reflito calado, à beira de mim mesmo.

Renascendo no imaginado.

Porque, no fundo, o que eu quero é o que já tive.

Os sapatos amaciados, a partilha da utopia

de ser feliz.

Para dar sentido as coisas que virão.


Já fui bendito.

Já fui maldito.

Já fui amado.

Já fui execrado.

Agora sou meu próprio showman.


Novos fracassos me atraem.

Me vingo do que me fere sem o ônus da prova.

Entro e saio de cena sem mágoas nem penas.

Vivo a vida sem precisar de bode expiatório.

Celebrar é obrigatório.

Meu coração é meu santuário.

Aberto a todas possibilidades.

Prenhe de felicidade.



segunda-feira, 26 de maio de 2025


                   o rosto                      



Um rosto paira no silêncio da noite.

Flutua sobre o tempo vivo, remanescente do fracasso

de um amor que sequer existiu.

Não do jeito que imaginava.

Não forte e invencível, como acreditava.


Às vezes é o que acontece.

De o amor não ser o que parece.

Pinta e borda no começo

para depois se revelar um autêntico blefe.


Um rosto paira no silêncio da noite.

Quisera poder apagá-lo da memória.

Mas está além da minha vontade.

Reluto em aceitar que não consigo te esquecer.

Que bem ou mal, te conhecer

foi a melhor coisa

que aconteceu na minha vida.







              meu coração me condena

   

Meu coração me condena a ser só.

Por sentir tudo intensamente.

Dou tudo.

Quero tudo.

Simples assim.

Meio termo não me satisfaz.

Não gosto de nada pela metade.

Querer, gostar, amar

tem que ser para valer.

Não um mero jogo de palavras.


Pois cobro, sim, reciprocidade.

Desde as coisas mais simples.

Atenção, respeito, consideração.

Para o quê espero a devida contrapartida.

O que raramente acontece.

Daí os constantes conflitos.

Daí acabar sempre sozinho.


Meu coração me condena a ser só.

Por não me contentar com pouco.

Por esperar dos outros mais do que podem dar.

Por ser pródigo em empatia e ternura.

Por confiar e me arriscar a fazer papel de bobo.

A ser sempre o errado.

Por querer, por amar demais.


  

 

domingo, 25 de maio de 2025


                        

                o roto e o esfarrapado



Algo de nós sempre fica no limbo da memória.

Arrastamos nossas culpas sem assumi-las.

Mas já não há desculpas disponíveis.

As promessas se recolhem, coniventes.

Tudo já foi feito, refeito e descumprido.

O roto e o esfarrapado andam lado a lado.

Só as coisas primitivas permanecem, voltando-se

contra si mesmas.

Algo de nós não inspira confiança.

Algo de nós quer o novo

mas não se desprende do velho.


De ti e de mim, o amor foi-se afastando 

aos poucos.

Em meio a tudo, 

algo de nós se refugia no tempo prescrito 

e decifrado.

Para que todas as coisas lindas

que vivemos

tenham alguma serventia.


 





                      desencanto



Algo de nós ficou

no limbo das lembranças.

O que sou, o que és, dueto de sonhos

e equívocos.

O desencanto recitado em prosa e verso,

entre rajadas frescas de vento.


Você foi a chave da minha ignição.

De tão grande, nosso amor morreu de inanição.

Era feliz e sabia.

Sempre estive consciente de tudo.

Se acabou foi simplesmente porque

o que é bom também enjoa.


Algo de nós conspira contra.

Algo de nós não inspira confiança.

Algo de nós quer o novo

mas não se desprende do velho.


O que sou, o que és, dueto de sonhos

e equívocos.

O desencanto recitado em prosa e verso,

entre rajadas frescas de vento.

Algo de nós retorna a sua forma insurgida e plena,

a fim de restabelecer o equilíbrio do nada.



Postagem em destaque

                            chega mais Chega mais, irmão. Hoje é dia de pagode e de cerveja. Só sofre sozinho quem quer. Se a tristeza apare...