quarta-feira, 24 de junho de 2026


                                 mundo sem nexo


Tudo muda.

De repente, um a um,

os entes queridos se vão.

Num instante, tudo aquilo que se conhecia,

que se tinha, as coisas que fazia,

em que acreditava,

mudam para sempre.


É o drama recorrente da vida.

Perder tudo, à revelia do mundo sem nexo.

Ficando apenas traços imperfeitos no tempo.


Somos muitos e, no entanto, estamos sós.

Descartados, quando muito tolerados, 

já tendo cumprido seu papel.

Poucos têm a sorte de contar com o amor

incondicional.

Abandono, descaso,

a tudo estamos sujeitos,

quando os laços não são eternos.





                                                o vulcão


Houve, sim,

um tempo em que fui feliz. 

De repente, acordei velho.

Mas no espelho ainda vejo

um menino perdidão.

Que não só é feliz, como sabe.


O coração finalmente sossegou.

Já não berra.

Já não sangra.

Só quer paz.

A paz de quem se conhece melhor.

De quem não perdeu o gosto pela vida.

Apenas se aquietou.

Se feito um vulcão hibernando,

só o tempo dirá...



terça-feira, 23 de junho de 2026

 

                         um mundo

                   como

                   nunca houve


Nas diferentes eras,

das mais obscuros a atual revolução tecnológica,

impingir sofrimento e dor tem sido a sina

da humanidade.

Até aí, nada de novo.

Novidade seria o mundo ter mais paz, harmonia.

Que os povos se respeitassem e aprendessem a conviver

pacificamente.

Que os conflitos e discriminações cessassem,

que se depusessem as armas,

e as pessoas se irmanassem,

dividindo e somando,

para construir um mundo como nunca houve.





                                       

                                  conto do vigário



Na vida há vários caminhos.

De luzes e cruzes.

De rosas e espinhos.

Os prazeres passam, as dores 

e os dissabores ficam. 

O amor esconde os defeitos, enquanto 

nos põe algemas.

Quem nunca foi traído, não perde 

por esperar. Nem ganha.

O amor é um conto do vigário.

para o qual

nunca falta otário.



terça-feira, 16 de junho de 2026

 


                            meio sol, meio escuridão



Louve-se a perenidade das coisas sem nome.

O labor anônimo, o sacrifício velado às causas perdidas.

O bem que se faz apenas por fazer.

Bendito tudo que encanta, que alegra,

faz alguém sorrir.


Oxalá a vida fosse simples como repartir um pão,

para que cada um tivesse o seu quinhão,

e ao fim de cada dia, o aconchego de um lar

para apascentar o coração.


Mas não fomos feitos para viver

em paz e harmonia.

Expulso do Paraíso, perseguido por deuses 

desdenhosos,

nosso destino inglório é perseverar no erro.

Rodeados de desamparo, transmutando

como um camaleão. 

Meio sol, meio escuridão.



segunda-feira, 15 de junho de 2026


                        o avesso do amor



Dessa vez não nos abraçamos,

reconciliados,

como num melodrama barato.

Dessa vez não houve palavras de arrependimento,

nem o perdão perfeito.

Mas sim um silêncio honesto,

uma espécie de cansaço

do enredo de sempre.

Nenhum beijo na face, apenas 

o som da chave girando,

destrancando a porta que já estava

há muito aberta.


Aceitamos o fim sem o peso do drama

ou das promessas rasas.

Assumimos, enfim, que o amor também

cansa de tentar 

consertar o que já nasceu quebrado.

Dessa vez, sem o barulho de portas batendo,

nem mesmo tentativas de justificar o espaço

vazio que entre nós se formou.

Descobrimos, menos mal, que o avesso do amor

não é o ódio, 

apenas o silêncio eloquente

de quem não precisa mais justificar-se.

Nem tampouco explicar os motivos

de não ter dado certo.

O fim nem sempre precisa de culpas

e culpados.

É apenas o fim.








domingo, 14 de junho de 2026


                                       Tudo bem, faz parte




O trabalho cansa

O dinheiro nunca chega 

As relações pesam

As cobranças sufocam

As festas acabam

Os sonhos mudam

Tudo bem, faz parte.


A gente cai e se levanta

As certezas desabam

As feridas cicatrizam

A alma amadurece

O novo amanhece

O relógio não para.

Tudo bem, faz parte.


A vida se reinventa

O que realmente importa

Não são as conquistas e os fracassos

Mas o aprendizado que nos permite 

seguir em frente.

E a mão de quem caminha com a gente.







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